
Na última semana, o time de ufologia marcou dois gols, mas eles acham que venceram o jogo, ou até mesmo o campeonato. O que aconteceu? Foram publicados dois artigos revisados por pares em periódicos científicos reconhecidos. No X (ex-Twitter), o estardalhaço foi imenso. A publicação dos artigos é, de certa forma, uma vitória ufológica, mas os comentários a respeito revelam como parte da comunidade ufológica não faz ideia de como se estabelece um fato ou consenso científico.
Primeiro, vamos entender a base de dados que os cientistas usaram. Os resultados surgiram da análise de breves clarões de luz, chamados de transientes, registrados em chapas fotográficas datadas do início da década de 1950, no âmbito do atual projeto VASCO (Vanishing & Appearing Sources during a Century of Observations; Fontes que Desaparecem e Reaparecem ao Longo de um Século de Observações, em livre tradução; nada a ver com o time carioca). Esse projeto analisa chapas astronômicas digitalizadas com o objetivo de identificar fontes luminosas que piscam, desaparecem ou surgem subitamente, buscando, assim, compreender melhor tanto fenômenos naturais quanto eventos ainda sem explicação; inclusive UAPs/UFOs.
O recorte temporal da base de dados é importante, como relata uma das principais autoras dos estudos, a astrônoma Beatriz Villarroel, da Universidade de Estocolmo:
“Hoje sabemos que breves clarões de luz frequentemente são reflexos solares provenientes de objetos planos e altamente reflexivos em órbita da Terra, como satélites e detritos espaciais. Mas as chapas fotográficas analisadas no projeto VASCO foram produzidas antes de existirem satélites no espaço”.
O primeiro artigo
O primeiro artigo foi publicado na Scientific Reports, revista do Grupo Nature. Cabe ressaltar que, embora do mesmo grupo, Scientific Reports e Nature são periódicos diferentes. Digo isso porque vi algumas pessoas, inclusive jornalistas, confundirem as duas coisas. O artigo analisa objetos transientes semelhantes a estrelas, de origem desconhecida, identificados na primeira Pesquisa do Observatório de Palomar (POSS-I), realizada antes do lançamento do primeiro satélite artificial.
Foi criado um conjunto de dados diários com 2.718 dias, incluindo informações sobre transientes, testes nucleares e relatos de fenômenos anômalos não identificados (UAPs). Os resultados indicam algumas coisas. Primeiro, associação com testes nucleares: há uma correlação significativa entre testes nucleares e a ocorrência de transientes, sendo 45% mais provável observar transientes em datas próximas (±1 dia) a testes nucleares.
Depois, vem a relação com relatos de UAPs. Em dias com pelo menos um transiente identificado, há uma associação significativa entre o número total de transientes e o número de relatos independentes de UAPs. Cada relato adicional de UAP está associado a um aumento de 8,5% no número de transientes. Adicionalmente, os autores constataram uma associação entre testes nucleares e UAPs: foi encontrada uma correlação baixa, mas significativa, entre testes nucleares e o número de relatos de UAPs.
Embora o artigo apresente associações estatísticas significativas, algumas críticas podem ser levantadas. Por exemplo, a associação entre transientes, testes nucleares e UAPs não implica causalidade. Além disso, não é surpresa alguma que em uma base de dados suficientemente grande seja encontrada uma correlação e ela seja significativa. Correlações espúrias, mas significativas, podem emergir em grandes bases de dados, sem que a relação, contudo, tenha qualquer significado. Alguns críticos apontaram, ainda, que os dados de relatos de UAP e observações do POSS-I podem sofrer de inconsistências, como erros de observação, relatos subjetivos ou limitações tecnológicas dos anos 1950 que afetam a precisão.
O segundo artigo
O segundo artigo, na Publications of the Astronomical Society of the Pacific, investigou imagens astronômicas digitalizadas do POSS-I, obtidas antes da era dos satélites artificiais, com o objetivo de identificar objetos artificiais com alta reflexão especular próximos à Terra. O estudo buscou múltiplos transientes pontuais alinhados em uma faixa estreita dentro de uma mesma exposição fotográfica. Foi identificada uma lista de alinhamentos promissores, incluindo um com significância estatística de aproximadamente 3,9σ, que permanece difícil de explicar por fenômenos conhecidos, embora reflexos ópticos raros não possam ser completamente descartados.
Antes de prosseguir, uma explicação mais técnica: um resultado com 3,9σ de significância implica que o evento observado – no caso, o alinhamento dos flashes transientes – está a 3,9 desvios-padrão da média que seria esperada, se esse alinhamento tivesse acontecido por acaso. Em termos de probabilidade, quanto maior o valor de σ (“sigma”), menor a chance de os eventos não estarem relacionados entre si. Um valor de 3,9σ corresponde a uma probabilidade muito baixa de mero acaso.
Um achado notável foi o déficit altamente significativo (∼22σ) de transientes na região de sombra da Terra, em comparação com a cobertura teórica da sombra hemisférica a 42.164 km de altitude, embora esse déficit tenha sido reduzido a ∼7,6σ ao considerar uma cobertura mais realista, baseada nas placas fotográficas. Se na região sombreada pela Terra há menos transientes, isso pode indicar que boa parte deles realmente reflete luz. Os autores sugerem que esses transientes alinhados podem estar relacionados a reflexos rápidos de objetos altamente reflexivos em órbita geossíncrona ou emissões de fontes artificiais acima da atmosfera terrestre, destacando o estudo como uma exploração inicial do potencial de arquivos fotográficos para revelar fenômenos transientes e incentivando buscas mais sistemáticas.
No entanto, o estudo enfrenta críticas. A possibilidade de artefatos ópticos, como reflexos, não foi totalmente eliminada, comprometendo a interpretação dos alinhamentos como fenômenos reais. A significância de 3,9σ para o alinhamento mais promissor é relativamente baixa para reivindicações extraordinárias, exigindo mais evidências; em física e astronomia, o padrão é de 5σ para se considerar algo um resultado interessante o suficiente, ou seja, para distinguir entre ruído e sinal. O déficit de 22σ, embora impressionante, baseia-se em um modelo teórico que pode não refletir as condições reais de observação, como variações na cobertura das placas, e a redução para 7,6σ com um modelo mais realista sugere que o cálculo inicial pode superestimar a significância.
A dependência exclusiva dos dados do POSS-I, sem integração de outras fontes contemporâneas, limita a robustez dos achados. Por fim, a sugestão de que os transientes podem ser reflexos de objetos artificiais ou emissões de fontes artificiais é especulativa, carecendo de evidências diretas, o que reforça a necessidade de análises mais detalhadas e replicações em outros conjuntos de dados para validar os resultados.
A visão de um especialista
Obviamente, como não sou especialista, resolvi fazer algumas perguntas a quem realmente está por dentro do assunto. Contatei o astrônomo Nigel Hambly, da Universidade de Edimburgo, que gentilmente respondeu a minhas perguntas e permitiu que a RQC as publicasse. Por isso, somos muito gratos! O doutor Hambly é especialista no assunto e, como você verá, já publicou artigo sobre alegados transientes em chapas fotográficas.
RQC. Alguns críticos sugerem que os transientes observados em levantamentos históricos do céu, como as chapas de Palomar, poderiam ser explicados por defeitos na emulsão fotográfica, impactos de raios cósmicos ou artefatos instrumentais. Como você avalia a solidez da metodologia de Villarroel na distinção entre transientes reais e esses artefatos, especialmente considerando as limitações das chapas fotográficas da década de 1950?
NH. Continuo surpreso com o fato de que — até onde sei — os autores desse trabalho não examinaram diretamente as chapas fotográficas originais, mas apenas as digitalizações dessas cópias, nas quais baseiam suas análises. Como observei em minha contribuição para o tema, as digitalizações utilizadas correspondem a chapas de segunda geração (cópias), e as conclusões ganhariam mais credibilidade se fosse demonstrado que essas manchas também aparecem nos negativos originais — o que eliminaria uma explicação mundana bastante plausível, a saber, que elas sejam artefatos introduzidos durante o processo de reprodução fotográfica usado para gerar as cópias. Pela minha experiência (de décadas) com fotografias Schmidt de grande formato, tanto cópias quanto originais, é muito fácil acreditar ter encontrado algo interessante — e já fui enganado muitas vezes por todo tipo de característica espúria que parece real. Nada substitui o exame direto de uma chapa sobre uma mesa de luz com um microscópio, observando de perto as estruturas na emulsão. É claro que a presença das manchas nas chapas originais não prova que elas sejam reais, mas ao menos eliminaria uma fonte provável de falsos positivos nas cópias.
RQC. Como explicar o déficit de transientes na sombra da Terra?
NH. Não posso comentar isso em detalhes quantitativos — ainda não tive tempo de analisar completamente os argumentos. Mas diria que os horários de observação (ângulos horários) das exposições certamente estavam sujeitos a diversos tipos de restrição, o que pode plausivelmente gerar correlações aparentes desse tipo; portanto, é preciso muito cuidado ao interpretar esses dados.
RQC. A alegada significância de 22σ na correlação entre os transientes e o déficit na sombra da Terra foi destacada como um dos principais resultados. Você considera essa análise estatística convincente, ou vê possíveis problemas (como viés de seleção, sobreajuste a relatos históricos de óvnis ou ausência de amostras-controle não relacionadas a UAPs) que justificam cautela?
NH. Não compreendo completamente esses argumentos estatísticos, principalmente porque ainda não tive tempo de estudá-los em detalhe; portanto, não posso opinar com segurança. No entanto, “cautela” é sem dúvida a palavra apropriada aqui — e volto à minha sugestão principal: o primeiro passo deveria ser retornar às chapas originais e começar a análise a partir delas.
RQC. Além disso, o que você pensa sobre a correlação entre testes nucleares e relatos de UAPs? Devemos considerá-la relevante, dado o grande conjunto de dados?
NH. Mais uma vez, não posso sustentar isso com uma análise estatística rigorosa, mas minha suspeita é que correlações aparentemente interessantes — de todos os tipos e em apoio a qualquer hipótese — podem ser extraídas de conjuntos de dados grandes e heterogêneos, sendo extremamente difícil avaliar se têm algum significado real.
RQC. O trabalho de Villarroel associa de forma preliminar os transientes a possíveis fenômenos relacionados a UAPs, como objetos reflexivos em órbitas geoestacionárias anteriores ao Sputnik. Você acredita que esse enquadramento representa um risco de viés de confirmação, ou constitui uma abordagem interdisciplinar válida? Que dados adicionais (por exemplo, análises espectrais ou verificação cruzada por radar) seriam necessários para reforçar ou refutar tais interpretações?
NH. Antes de qualquer outra coisa, se eu fizesse parte dessa equipe, gostaria de voltar às chapas originais e examiná-las diretamente.
RQC. Críticos destacaram a necessidade de replicação independente dos resultados do projeto VASCO. Com base em sua experiência, que etapas específicas recomendaria para que astrônomos possam verificar ou contestar essas conclusões?
NH. Veja a resposta anterior!
RQC. Além disso, como você avalia o processo de revisão por pares desses artigos, considerando que alguns foram inicialmente publicados como pré-prints no arXiv?
NH. Pessoalmente, prefiro não divulgar nenhum trabalho em servidores públicos de pré-publicação antes que ele passe pela revisão por pares, embora entenda por que os pesquisadores o fazem nesses tempos competitivos. Valorizo muito o processo de revisão, pois ele já me impediu várias vezes de cometer equívocos. Não é perfeito, mas fornece um certo nível de controle e garantia de qualidade — e, apesar de suas falhas, tem viabilizado um progresso científico notável em diversas áreas. No caso específico deste trabalho, observo que há pelo menos um artigo no arXiv que parece ter sido preparado com a intenção de publicação em um periódico revisado por pares, mas que, até hoje, não foi publicado — embora já tenha alguns anos. Se acreditamos na importância da revisão por pares (como eu acredito), isso por si só é motivo de cautela quanto à credibilidade do estudo.
RQC. Se os transientes não forem artefatos, mas fenômenos genuínos, que explicações astrofísicas alternativas (por exemplo, microlentes gravitacionais, estrelas variáveis ou satélites naturais) poderiam justificá-los? E quão testáveis seriam essas hipóteses em comparação com as interpretações relacionadas a UAPs propostas por Villarroel?
NH. Acredito que os artigos já abordam praticamente todas as possibilidades — não consigo pensar em outras. Se forem reais, levantamentos mais sensíveis e recentes, como o SDSS, Pan-STARRS ou o Rubin-LSST, já deveriam ter detectado (ou futuramente detectarão) exemplos adicionais desses eventos… e, até onde sei, isso ainda não aconteceu.
Um último lembrete
No X, um alvo dos entusiastas tem sido Mick West, conhecido na comunidade por explicar os UAPs/UFOs como coisas relativamente prosaicas, definitivamente terrestres. Alegaram que agora Mick está sem saída, já que os resultados são revisados por pares e, portanto, confiáveis e/ou corretos. Isso demonstra como a comunidade ufológica entende pouco da formação de consenso, ou estabelecimento de algum fato na comunidade científica.
Todos os dias são publicados milhares de artigos, muitos deles contrariando o que já se conhece. E muitos, mas muito deles, não sobrevivem ao escrutínio posterior, que será realizado APÓS a publicação. O verdadeiro padrão-ouro da academia, como bem pontuado por West, não é a revisão por pares em si, mas a replicação independente: diferentes artigos, com diferentes autores e/ou bases de dados, chegando independentemente às mesmas conclusões. E isso ainda não aconteceu no que diz respeito aos transientes em questão.
Acredito que haverá uma resposta, também revisada por pares, a esse artigo, seja ela uma resposta direta ou um reanálise. Prometo trazer atualizações!
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
