OMS se enrola no paradoxo da medicina alternativa

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20 nov 2025
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Truque de mágica em foto do século 19

Olhando para 2025 até agora, é difícil não reconhecer que este foi um dos anos mais prolíficos em termos de problemas ligados a pseudociências — algo que, paradoxalmente, ao menos rende bons temas de artigo.

Assistimos ao governo americano afirmar que Tylenol causa autismo; a Câmara dos Deputados realizar uma audiência pública para discutir ufologia e a Lei de Acesso à Informação; a liberação de algumas modalidades de ozonioterapia pelo CFM; e, mais recentemente, o 3º Congresso Mundial de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (3º WCTCIM), um evento que reuniu pesquisadores e praticantes das mais diversas terapias integrativas, quase todas sem evidências científicas sólidas de eficácia — e algumas com evidências de ineficácia. Cesar Baima, editor-assistente aqui da RQC, cobriu os três dias do evento e escreveu uma obra-prima que merece ser lida; é só clicar aqui.

Tragicamente, tudo indica que essas práticas continuarão cada vez mais presentes no cotidiano. Segundo a pesquisa “Many Prefer Alternative to Conventional Medicine”, publicada pelo Statista e conduzida entre abril de 2022 e março de 2023, envolvendo de 1.000 a 10.000 adultos de cada país sondado, cerca de um quarto dos entrevistados em áreas urbanizadas da Índia, Filipinas, Suíça, África do Sul e China afirmou preferir tratamentos alternativos à medicina convencional. Nos EUA, o índice foi de 21% — mais alto do que na maioria dos países europeus e anglófonos —, enquanto no Brasil o porcentual chegou a 14%.

Tendências de mercado reforçam essa expansão. Um relatório da Grand View Research estimou que a medicina alternativa e complementar movimentou US$ 179,17 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 1,43 trilhão em 2033. A consultoria IMARC projeta um valor menor — US$ 741,9 bilhões para 2033 —, mas ambas indicam forte crescimento.

Independentemente de qual projeção esteja mais próxima da realidade, uma coisa é nítida: o setor cresce em ritmo acelerado. Aplicativos, e-commerce e outros meios digitais devem impulsionar ainda mais o mercado.

Essas tendências também aparecem em dados epidemiológicos. Uma carta de pesquisa publicada no JAMA Network, Use of Complementary Health Approaches Overall and for Pain Management by US Adults”, analisou o uso de abordagens complementares entre adultos nos EUA nos anos de 2002, 2012 e 2022.

Usando dados do levantamento americano National Health Interview Survey (NHIS), o estudo avaliou sete práticas: acupuntura, quiropraxia, imaginação guiada/relaxamento muscular, meditação, massagem, naturopatia e ioga.

Em 2002, 19,2% dos participantes relataram usar alguma dessas práticas; em 2022, o número subiu para 36,7%. O maior aumento individual foi da ioga (5% para 15,8%), embora a meditação tenha se tornado a mais praticada em 2022 (17,3%).

No Brasil, os dados também são preocupantes. Segundo a matéria “Práticas Integrativas e Complementares em Saúde crescem 70% e ampliam o acesso ao cuidado integral no SUS”, publicada no gov.br, as PICS registraram 7.156.703 procedimentos em 2024, um aumento de 70% em relação a 2022.

Apesar de discutirmos repetidamente muitas dessas práticas aqui na RQC — e das evidências, em geral, mostrarem que seus efeitos não superam os do placebo —, governos no Brasil e no exterior seguem financiando tais intervenções. À luz do novo documento da OMS sobre Medicina Complementar e Integrativa, tudo indica que o entrelaçamento entre poder público e pseudociências deve se aprofundar ainda mais.

 

OMS e as práticas integrativas

As críticas a seguir não dizem respeito a todas as ações da OMS, como o trabalho na promoção da imunização global, responsável, por exemplo, pela erradicação da varíola.

Mas é preciso enfatizar que não é de hoje que a OMS erra na promoção das chamadas “práticas tradicionais, complementares e integrativas”. Desde 2002, a organização publica estratégias (já na terceira edição) incentivando países a incorporar essas práticas a seus sistemas de saúde, apresentando-as como complementares ao tratamento biomédico.

No artigo de 2023 “The World Health Organization promotes quackery yet again”, David Gorski, médico e editor-chefe do Science-Based Medicine, apontou que, dias antes do “Primeiro Encontro Global da OMS sobre Medicina Tradicional”, a organização publicou, no X, uma série de postagens defendendo práticas tradicionais. Nessas mensagens, exaltava tanto o fato de muitos fármacos derivarem de substâncias naturais quanto o uso dessas práticas como o primeiro contato de milhões de pessoas com o sistema de saúde. Também chegou a enaltecer três pseudociências relativamente recentes: homeopatia, naturopatia e osteopatia.

E em junho deste ano saiu o relatório “Global Traditional Medicine Strategy 2025–2034”, adotado na 78ª Assembleia Mundial da Saúde, projetando um mundo no qual todos tenham acesso universal a uma medicina tradicional, complementar e integrativa (MTCI) “centrada nas pessoas”.

A principal diferença desta edição em relação às anteriores é a inclusão explícita da medicina integrativa no escopo da medicina tradicional, definida como “uma abordagem interdisciplinar e baseada em evidências para a saúde e o bem-estar, utilizando uma combinação de conhecimentos biomédicos e tradicionais e/ou complementares”. Essa definição sustenta os quatro objetivos estratégicos que estruturam o relatório.

Entre os princípios apresentados, destacam-se: tomadas de decisão baseadas em evidências robustas de segurança e eficácia; visão holística do corpo e sua relação com o ambiente; preservação da biodiversidade; direito à saúde e autonomia; respeito aos direitos e ao conhecimento de povos indígenas; alinhamento entre cuidados e preferências culturais; cuidados centrados nas pessoas; integração segura da MTCI aos sistemas de saúde; e promoção da equidade.

A partir desses princípios, a estratégia estabelece seus quatro objetivos. O primeiro é fortalecer a base de evidências, fomentando pesquisas rigorosas, bem financiadas e de impacto, abrangendo estilos de vida, prevenção, terapias, serviços, sistemas integrativos e tecnologias digitais. Recomenda-se ainda a criação de bancos de dados de evidências e sistemas amplos de coleta de informações.

O segundo objetivo é garantir mecanismos regulatórios adequados para produtos e práticas de MTCI, partindo do pressuposto de que, se forem utilizados, devem ser comprovadamente seguros e eficazes.

O terceiro busca integrar serviços seguros de MTCI a políticas e marcos nacionais, avaliando quando essa integração é viável, reorientando serviços quando necessário e aproximando-os dos conteúdos educacionais da biomedicina.

Por fim, o quarto objetiva incluir a MTCI em políticas intersetoriais ligadas à saúde, ao bem-estar social e aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Defende ainda a proteção e o acesso justo ao conhecimento tradicional, promovendo cooperação internacional, aprendizagem intergeracional e preservação da biodiversidade e das práticas tradicionais.

Obviamente, há muitos pontos que poderíamos discutir nessas possíveis “diretrizes”. Mas o cerne da questão é a profunda contradição do documento: ao mesmo tempo em que exige rigor científico e defende evidências sólidas, ignora o acúmulo de estudos que demonstram a ineficácia de grande parte das práticas que pretende “integrar” à medicina.

Essa dissonância  produz efeitos concretos, como o desperdício de recursos escassos em intervenções que não trazem benefício  — às vezes gerando efeitos inócuos, mas não raramente prejudiciais — e o endosso, mesmo que indireto, de práticas sem base científica, que podem afastar indivíduos de tratamentos eficazes.

 

Sem solução

Em sequência às novas estratégias, o Bulletin of the World Health Organization publicou uma edição com 18 artigos sobre MTCI, quatro dos quais me chamaram a atenção.

Um analisou marcos regulatórios, padrões para autorização de comercialização e aprovações de medicamentos tradicionais em cinco países; outro abordou como a integração da medicina tradicional e complementar poderia fortalecer sistemas de saúde; uma revisão sistemática avaliou a validade das recomendações relacionadas à acupuntura para enxaqueca; outro explorou o panorama global de financiamento em pesquisa de MTCI, buscando gerar uma base de evidências mais robusta.

Fazendo um resumo dos artigos — mantendo os pontos problemáticos —, os trabalhos indicam que, com a expansão do mercado de produtos de medicina tradicional, as agências reguladoras precisam adotar estratégias mais rígidas para prevenir contaminações e adulterações. Isso inclui endurecimento das regras de padronização de matérias-primas e produtos finais, além de mecanismos de farmacovigilância para identificar interações entre plantas medicinais e fármacos.

Argumenta-se que a integração da MTCI aos sistemas nacionais de saúde é possível com políticas adequadas e financiamento. A disponibilidade de recursos surge como fator decisivo.

Entre as barreiras centrais à integração encontram-se ainda preocupações com eficácia, qualidade e segurança, incluindo efeitos adversos, ausência de padrões e falta de comprovação científica.

Sugere-se também uma suposta necessidade de reformar a educação médica, já que a ausência de conteúdos formais sobre medicina tradicional gera desconfiança e conflitos entre praticantes tradicionais e serviços modernos.

Acredito que o reconhecimento da falta de evidências de boa qualidade invalida, quase por completo, a posição adotada pela OMS na seção “Evidence-based” do documento, que afirma que nenhuma prática, seja biomédica ou tradicional, deve ser recomendada sem estar fundamentada em evidências sólidas.

Na mesma linha, ao analisar o editorial publicado pelo mesmo boletim da OMS sobre MTCI, Edzard Ernst, em seu blog, traz outras colocações importantes. Por exemplo, Ernst lembra que o fato de bilhões de pessoas dependerem da medicina tradicional não implica um grande potencial clínico, mas sim que, infelizmente, bilhões de pessoas não têm acesso a tratamentos convencionais.

Também observa que, embora apenas 1% do financiamento global de pesquisa em saúde seja destinado à área, esse valor representa cerca de US$ 2 bilhões anuais — suficientes para conduzir estudos de alta qualidade, mas que raramente ocorrem devido ao uso de metodologias duvidosas.

Além da falta de segurança, eficácia e de evidências de alta qualidade, há um último aspecto que não pode ser desconsiderado: as práticas integrativas, tradicionais e complementares, embora muitas vezes apresentadas como mais “naturais” e seguras, podem trazer riscos significativos à saúde.

O artigo A taxonomy of risk-associated alternative health practices: A Delphi study identificou que a substituição de terapias biomédicas eficazes por práticas alternativas pode levar à progressão descontrolada de doenças, atrasar diagnósticos ou interromper tratamentos, resultando em danos graves e até morte.

Infelizmente, os casos são diversos, envolvendo tanto jovens, como Jess Ainscough — abordada em outro artigo da RQC — que morreu devido a um câncer extremamente agressivo após interromper o tratamento convencional para seguir a terapia Gerson, quanto crianças, como Makayla Sault, que decidiu interromper a quimioterapia com o apoio da família e optou por medicina indígena.

O estudo aponta ainda riscos associados ao uso concomitante de terapias alternativas e tratamentos médicos, sem que os profissionais de saúde sejam informados, o que pode gerar efeitos combinados perigosos.

Outras atividades de risco identificadas incluem danos psicológicos decorrentes de recomendações prejudiciais que colocam pacientes em conflito com médicos e familiares, danos físicos por terapias ineficazes ou prejudiciais e diagnósticos não reconhecidos pela medicina, que podem iludir pacientes.

Ao analisar separadamente as práticas integrativas, constatou-se que sistemas baseados em crenças alternativas — como Medicina Tradicional Chinesa (MTC), naturopatia, Ayurveda e curanderismo religioso — foram associados à toxicidade de determinados remédios. Por exemplo, na MTC, a raiz de Aristolochia, uma planta que contém toxinas e compostos carcinogênicos, era indicada para diversas condições, mas resultou em mortes.

O estudo também aponta que, embora exista consenso entre profissionais, pacientes, governos e empresas sobre a necessidade de garantir a segurança das intervenções alternativas, sua eficácia permanece não demonstrada cientificamente. As limitações da pesquisa incluem a subnotificação de eventos adversos, o que impede estimar a incidência real, e a possibilidade de fatores de confusão.

A discussão não deveria girar em torno de estratégias para facilitar o acesso a essas práticas, nem do aumento do financiamento, mas sim sobre como fornecer tratamentos eficazes e, de fato, baseados em evidências, especialmente para populações carentes.

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

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