O fim da Wikipédia?

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9 fev 2026
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Enciclopedia

 

A Encyclopædia Britannica, cujo nome em latim significa “Enciclopédia Britânica”, é uma enciclopédia de conhecimentos gerais publicada em língua inglesa. Sua história começa em 1768 e, após passar por diferentes proprietários ao longo do tempo, hoje pertence à empresa Encyclopædia Britannica, Inc. A última edição impressa foi a versão de 2010 da 15ª edição, composta por 32 volumes e mais de 32 mil páginas. Desde 2016, a obra passou a existir exclusivamente em formato digital, disponível no site Britannica.com.

Se você notou o estilo do parágrafo anterior, deve ter pensado que eu simplesmente repliquei informações que encontrei na Wikipédia. E você estaria totalmente certo! Por mais que você ou mesmo seus professores digam o contrário, a verdade é que, assim como eu, não raro você e eles recorrem a essa fonte, quando sentem a necessidade de informação sobre algo com certa urgência, ou quando uma busca aprofundada não é necessária. Muitos a abominam (ou assim dizem), mas o fato é que a Wikipédia é um dos projetos colaborativos de maior sucesso de todos os tempos.

Como o motto não oficial “Wiki não é papel”, essa moderna enciclopédia, um construto coletivo sem fins lucrativos, cresceu muito além do que as enciclopédias impressas poderiam jamais sonhar. A Wikipédia em português conta com mais de 1 milhão de artigos até agora, enquanto a Wikipédia em inglês soma mais de 7 milhões. Milhares de usuários são responsáveis por esse crescimento prodigioso. Batalhas foram e são travadas, polêmicas sobre viés e omissão existem, mas o fato é que a Wikipédia é uma das mais populares fontes de informação.

O que a torna popular é o fato de atender a uma necessidade dos nossos tempos: considerando o volume voluptuoso de informação que produzimos todos os dias, como encontrar qualquer coisa de valor nesse dilúvio de bits? Como discutido no livro “A Informação” (de James Gleick), além da busca pela informação, a filtragem tornou-se fundamental. Enquanto um projeto que constrói seus verbetes, idealmente, sobre o que foi levantado nas mais variadas fontes de informação (de panfletos a artigos científicos), a Wiki serve, sim, como um filtro. Mas nem todos os filtros funcionam igualmente bem, é claro.

Qual a qualidade da informação contida na Wikipédia? É uma pergunta justa. Não basta que a informação seja pública e esteja a um clique do usuário. Sem controle de qualidade, um projeto como a Wiki pode fazer mais mal do que bem. Felizmente, uma investigação da Nature em 2005, bem como pesquisas subsequentes, demonstrou que a acurácia da wiki-informação é comparável à da Enciclopédia Britânica (apesar de protestos). Ainda assim, a academia debocha dela.

Por trás dessa atitude comum, existe uma ironia: cientistas também usam a Wikipédia. Por exemplo, artigos científicos recebem mais citações e impactam mais a sociedade quando são listados na seção de referências da Wikipédia. Ora, quem cita trabalhos científicos? Muitas pessoas, mas citações formais são feitas por... cientistas. Então, é claro, nós também desfrutamos dos benefícios dessa enciclopédia virtual. A Wikipédia fornece um ponto de partida relativamente bom para uma pesquisa mais aprofundada. Relativo, pois depende do tópico e da língua na qual o verbete foi escrito. De qualquer forma, as referências listadas permitem chegar à fonte original da informação e conferir, inclusive, se o que está na Wikipédia reflete de fato a literatura especializada.

Esse precioso recurso, porém, enfrenta agora uma ameaça. Por isso, Dariusz Jemielniak escreveu na Nature clamando para que os acadêmicos tomem alguma atitude:

“No entanto, sistemas de inteligência artificial generativa, pesadamente treinados com base na Wikipédia, agora estão ameaçando o futuro desse recurso livre, mantido por voluntários. O cenário mudou — e a comunidade acadêmica precisa prestar atenção. Grandes modelos de linguagem oferecem respostas instantâneas, derivadas da Wikipédia, sem qualquer atribuição. Quando chatbots de IA fornecem respostas aparentemente autoritativas extraídas das próprias páginas da Wikipédia, por que alguém iria até a fonte — ou ainda contribuiria com ela?”

A princípio, pode parecer muito bem-vinda uma enciclopédia gerada por IA, uma vez que é só alimentá-la com uma enorme base de dados que então ela produzirá um excelente compilado do conhecimento humano sobre um determinado tema. Não é? Na verdade, não. Primeiro, as IAs dependem dos dados utilizados para treiná-las. Segundo, há aspectos humanos que a IA não consegue, nem conseguirá replicar tão cedo (por mais que o hype da inteligência artificial insista). Por exemplo, seres humanos podem simplesmente recorrer a uma fonte até então desconhecida pela IA, que contém informação relevante sobre um determinado tópico. Além disso, somos capazes de uma nuance na interpretação da informação apresentada, algo ausente nas IAs, por mais gerais ou específicas que sejam suas respostas, a depender do prompt. Isso para não falar das “alucinações” a que IAs estão sujeitas.

Outro risco: as IAs têm uma tendência a dizer o que queremos ouvir. Isso é perigoso. É particularmente problemático quando pensamos em educação, ciência e saúde. Embora a Wikipédia não seja livre de vieses, é quase certo que qualquer usurário frequente irá encontrar informação que contesta seus preconceitos. Além disso, há páginas e páginas de discussões arquivadas, que podem ser de grande valia para quem realmente quer entender a controvérsia em torno de um ponto. Há alguns anos houve uma “guerra da Wiki” sobre DNA Lixo, e você pode conferir os argumentos. Esse é apenas um exemplo, dentre muitos possíveis.

Melhor do que um artigo construído por IA, é um artigo escrito por vários contribuintes, melhor ainda se envolver pessoas especializadas no assunto.

 Ecoando o grito de Jemielniak:

“O tempo das desculpas acabou. A falha dos acadêmicos em apoiar a Wikipédia enquanto se beneficiam dela não é apenas hipocrisia, mas uma traição à nossa missão de criar e disseminar conhecimento. Se não agirmos agora, corremos o risco de perder o maior projeto colaborativo de conhecimento da Humanidade para os próprios sistemas de IA que ele ajudou a treinar. A escolha é clara: agir agora ou assistir ao colapso do bem comum que negligenciamos”.

Me parece uma escolha fácil.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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