
Em uma mesma semana, me deparei com vários comentários no Threads com variações da mesma pergunta. Uma delas perguntava: "O que está acontecendo esse ano na medicina? Vacina que cura o câncer, injeção ou algo que cura tetraplégico, vacina que cura HIV, injeções e procedimentos que rejuvenescem… Será verdade que seremos a última geração que vai morrer?". Outra, mais direta, questionava: "Da noite para o dia está aparecendo vacina da cura de câncer. Agora saiu uma cientista que cura tetraplégico e por aí vai. Por que será que só agora?".
O tom oscilava entre o encantamento genuíno e uma desconfiança velada: se essas descobertas são reais, por que surgem "de repente"? Por que "só agora"? Há algo de suspeito nessa suposta explosão de boas notícias, ou estamos chegando ao futuro utópico dos filmes de ficção científica?
Respondi a um dos comentários que descobertas científicas não ocorrem "da noite para o dia". Em geral, são resultado de décadas de pesquisa. Também argumentei que, nos exemplos citados, ainda há um longo caminho de testes clínicos a ser percorrido. Não existe "mágica" na ciência. Ciência é persistência em caminhos tortuosos, cujos resultados, quando positivos, parecem mágicos apenas para quem não vê o processo.
Iceberg invisível
Existe um fenômeno psicológico chamado viés de sobrevivência. No contexto mais clássico, a história é sobre os aviões da Segunda Guerra Mundial. Os engenheiros analisavam os buracos de bala nos aviões que retornavam das missões e concluíam que deveriam reforçar as partes mais danificadas. O estatístico Abraham Wald apontou um erro importante: estavam estudando apenas os aviões sobreviventes. Os que foram abatidos (ou seja, que tinham sido alvejados em pontos realmente vitais) não estavam ali.
A ciência tem seu próprio viés de sobrevivência. O que chega até você (manchetes, notícias, medicamentos, produtos tecnológicos) é a ponta visível de um iceberg imenso, cuja parte submersa é composta por hipóteses que não funcionaram, substâncias que pareciam promissoras e falharam, estudos que não se replicaram, décadas de trabalho que levaram a resultados negativos ou inconclusivos. Apesar de frustrante, isso não representa fracasso, mas sim o próprio percurso da ciência.
A percepção pública da ciência sofre, portanto, de um problema estrutural: só vemos o que sobrevive. E o que sobrevive parece milagroso porque o processo de seleção que o gerou é "invisível" para a maioria. Pense nas pirâmides do Egito, uma das conquistas de engenharia mais impressionantes da história humana. Justamente por isso, atrai até hoje uma hipótese recorrente: a de que só poderiam ter sido construídas com ajuda de seres extraterrestres. O argumento subjacente é o de que a Humanidade de 2500 a.C. não poderia ter chegado àquilo sozinha. O que essa hipótese ignora é tudo aquilo que não aparece: gerações de indivíduos envolvidos, décadas de tentativa e erro, pirâmides menores e menos “perfeitas” que vieram antes e funcionaram como protótipos, sistemas organizacionais sofisticados que não sobreviveram ao tempo. Não precisamos de ETs para explicar as pirâmides. Precisamos parar de subestimar o que o esforço humano acumulado e invisível é capaz de produzir. Com a ciência contemporânea, o raciocínio é o mesmo.
Há ainda um agravante: a comunicação científica tem o hábito de divulgar resultados positivos com mais entusiasmo do que negativos. Isso não é apenas um viés da mídia popular, mas também do próprio ecossistema científico. Estudos com resultados negativos são menos publicados, menos citados e menos noticiados do que aqueles com achados positivos. O fenômeno tem até um nome próprio: viés de publicação. Isso alimenta a expectativa de que resultados definitivos deveriam aparecer com mais frequência e rapidez do que o método permite.
Há um padrão de notícia que aparece periodicamente e que talvez você já tenha lido em alguma variação: "Cientistas descobrem composto que elimina 90% das células tumorais em camundongos". A manchete viraliza e, após algum tempo... silêncio. Passam meses, anos e ninguém mais fala naquilo. Por quê?
Para quem não conhece o processo científico, a explicação mais sedutora é a conspiratória: "A indústria farmacêutica comprou e enterrou a descoberta". É uma narrativa simples, com um vilão identificável e uma vítima clara. O problema é que ignora a realidade do desenvolvimento de novos tratamentos.
A criação de um tratamento de saúde passa por etapas bem definidas. Antes mesmo dos estudos em humanos, há fases pré-clínicas, que incluem estudos in vitro (em células cultivadas em laboratório) e in vivo (em animais, frequentemente camundongos ou ratos). Essas fases servem a um propósito específico: demonstrar que uma hipótese tem potencial biológico mínimo para justificar estudos em humanos. Elas não provam eficácia clínica e não demonstram segurança para uso humano.
Quando um composto "elimina tumores em camundongos", isso significa que passou por um filtro inicial, e que o filtro seguinte (os testes clínicos em humanos) está justificado. O filtro seguinte, que também é segmentado em fases, tem uma taxa de reprovação brutal. Dados da literatura especializada indicam que menos de 10% dos compostos que entram em fase clínica chegam à aprovação final (para algumas áreas, como oncologia, a taxa de reprovação ultrapassa os 95%). E dentro dessas fases clínicas, que podem durar anos, os compostos falham por diversas razões: ineficácia em seres humanos, toxicidade inaceitável, problemas de biodisponibilidade, ausência de benefício clínico relevante em relação ao que já existe etc.
“Impaciência epistêmica”
Existe um problema que não tenho visto nomeado com precisão suficiente, e que proponho chamar aqui de impaciência epistêmica: a tendência de cobrar da ciência um ritmo que corresponda à nossa percepção subjetiva (e errada) sobre como o conhecimento científico é produzido.
Essa impaciência se manifesta de formas distintas. Às vezes, como encantamento ingênuo ("estamos no futuro, será que vamos ser a última geração a morrer?"). Às vezes, como desconfiança ativa ("por que só agora? Deve ter algo errado aí"). E, às vezes, como terreno para teorias conspiratórias ("tinham a cura há décadas, mas enterraram para continuar lucrando com os doentes"). Todas essas manifestações compartilham a mesma premissa falsa: a de que a ciência deveria produzir resultados em escala compatível com o ciclo de notícias da mídia.
Mas a ciência não funciona assim e nunca funcionou. A penicilina foi descoberta por Alexander Fleming em 1928. A produção em escala industrial para uso clínico só foi viabilizada na década de 1940, por Howard Florey e Ernst Chain e, mesmo assim, impulsionada pela urgência de uma guerra mundial. Entre a observação inicial e a terapia disponível para a população, passaram mais de dez anos.
O desenvolvimento de vacinas para HIV começou logo após a identificação do vírus, no início dos anos 1980. Quarenta anos depois, ainda não temos uma vacina aprovada (e não por falta de esforço, investimento ou boa-fé dos pesquisadores, mas pela extraordinária complexidade biológica do desafio). A vacina para COVID-19 foi desenvolvida em tempo aparentemente recorde, mas apenas se você desconsiderar décadas de pesquisa acumulada sobre tecnologia de mRNA, investimento global simultâneo e um contexto de emergência. Mesmo assim, levou meses de testes após o desenvolvimento inicial e diversos protótipos falharam (centenas de candidatos a vacina contra COVID-19 chegaram a entrar em alguma fase de desenvolvimento, mas só alguns sobreviveram). Não existe "da noite para o dia" na ciência.
Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Carl Sagan escreveu algo que dialoga muito bem com esta discussão: "Se comunicarmos apenas as descobertas e os produtos da ciência [...] sem ensinar o seu método crítico, como a pessoa média poderá distinguir a ciência da pseudociência? As duas são apresentadas como afirmativas sem fundamentos".
A frase de Sagan, escrita há 30 anos, aponta para um problema de comunicação científica que continua em aberto, ilustrado pelos comentários que mencionei no início deste texto. Quando o público tem acesso apenas ao produto da ciência (a vacina aprovada, o tratamento bem-sucedido, o Prêmio Nobel), mas não ao processo que os gerou, cria-se uma lacuna perigosa.
Para quem entende minimamente como a ciência funciona, uma notícia sobre uma terapia que permite que uma pessoa tetraplégica mova seus dedos é impressionante e merece celebração. Mas também merece contextualização. Quantos anos de pesquisa básica essa conquista representa? Quantas hipóteses foram testadas e descartadas antes de chegar a essa? Em qual fase de desenvolvimento clínico está, e o que ainda precisa ser demonstrado antes que seja amplamente disponível?
Essas perguntas não existem para diminuir conquistas, mas para situá-las corretamente e, ao fazer isso, tornar o público mais capaz de não cair no ciclo de encantamento, seguido de decepção, seguido de desconfiança que alimenta o negacionismo. Notícias que geram expectativas que o método científico não consegue cumprir no prazo do entusiasmo público acabam gerando, com o tempo, um vácuo narrativo que precisa ser preenchido com alguma explicação. E a explicação conspiracionista está sempre disponível.
Vibrar sem pressa
Quero ser muito claro e reforçar um ponto que pode parecer contraintuitivo: não estou dizendo que não devemos nos emocionar com as conquistas da ciência. Pelo contrário. Elas merecem nossa emoção, celebração e reconhecimento genuínos.
O desenvolvimento de terapias baseadas em edição genômica com CRISPR-Cas9, que já demonstrou resultados promissores em doenças como anemia falciforme e certas formas de câncer hematológico, é extraordinário. Os avanços em imunoterapias para câncer, que redirecionam o próprio sistema imune do paciente para combater o tumor, representam uma mudança de paradigma em oncologia que teria parecido ficção científica há 30 anos. O tratamento da hepatite C, que passou de uma doença crônica e de difícil manejo para uma condição curável em mais de 95% dos casos com antivirais de ação direta, é um dos maiores triunfos silenciosos da farmacologia moderna. E a PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV), que permite que pessoas em situação de risco elevado se protejam da infecção com eficácia superior a 99%, quando usada corretamente, transformou décadas de pesquisa básica sobre o ciclo de replicação do vírus em uma ferramenta concreta de saúde pública. Devemos vibrar com tudo isso. O que não devemos fazer é apressar a complexidade da ciência para que se encaixe na nossa ignorância sobre o seu método.
A diferença entre o encantamento produtivo e o encantamento ingênuo está aí. Um olha para a conquista e pergunta: "Como chegamos aqui? O que esse resultado significa? O que ainda precisa ser demonstrado?". O outro olha e conclui: "Estamos chegando no futuro dos filmes de ficção científica" e, quando a promessa não se materializa no prazo imaginado, rapidamente conclui que "alguém enterrou a cura".
Há algo compreensível na narrativa conspiracionista sobre curas suprimidas. Ela traz algo que o processo científico honesto não oferece: um culpado identificável, uma narrativa simples e uma sensação de que o mundo seria melhor se não fosse por uma força malévola operando nos bastidores. Ao contrário, a ciência oferece incerteza, resultados negativos que precisam ser comunicados com a mesma seriedade que os positivos, e uma probabilidade genuinamente alta de que a hipótese promissora de hoje não sobreviva às fases de teste de amanhã. Isso é desconfortável para quem não está familiarizado com a natureza desse ecossistema.
Considerações finais
Não é razoável cobrar da ciência a pressa que deriva da nossa percepção subjetiva e equivocada sobre o tempo do conhecimento. Não é razoável interpretar o silêncio que se segue a estudos preliminares como prova de supressão. E não é desejável celebrar conquistas científicas sem compreender minimamente o processo que as tornou possíveis. Quem celebra a "vacina que cura o câncer" antes de entender o que isso significa em termos de fase de desenvolvimento clínico está, de certa forma, operando na mesma estrutura cognitiva de quem acredita na "cura natural" promovida por um influenciador: ambos reagem a uma promessa, sem avaliar a evidência.
Ciência não é mágica. É algo mais difícil e também mais bonito do que magia: é o resultado de pessoas que ousaram passar décadas fazendo perguntas que não tinham resposta, testando hipóteses que frequentemente falharam, comunicando honestamente seus erros e recomeçando. O que chega até você é a ponta visível de um iceberg de persistência, rigor e, muitas vezes, “fracasso produtivo” que nunca aparecerá no noticiário. Vibrar com a ponta do iceberg é completamente legítimo. Apenas não esqueça que a maior parte está submersa, e que é exatamente ela que sustenta o que você está vendo hoje.
André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é. (Editora Contexto)
