
Com a grande notoriedade midiática provocada pelas novas diretrizes alimentares americanas, surgiram duas dúvidas em minha mente: será que todos os países têm diretrizes alimentares? E, se sim, serão semelhantes entre si?
Atualmente, mais de 100 países contam com guias alimentares estabelecidos por agências governamentais. Um estudo de 2019, “A Global Review of Food-Based Dietary Guidelines”, revisou as diretrizes de 90 países, divididos em blocos regionais: África, Ásia-Pacífico, Oriente Próximo, Europa, América Latina e Caribe e América do Norte. A análise utilizou o repositório da FAO, agência de alimentação e agricultura da ONU, considerando diretrizes publicadas até 2018.
De modo geral, a maioria dos países adota representações gráficas — como pirâmides, pratos — que transmitem conceitos de variedade, proporcionalidade e moderação. Entre os países que disponibilizam guias visuais, predomina a organização dos alimentos em cinco grandes grupos: alimentos básicos ricos em amido; frutas; verduras e legumes; laticínios; e alimentos proteicos. A proporcionalidade entre os grupos é indicada, assim como a recomendação de moderação no consumo de açúcares, gorduras e óleos.
Apesar dessa convergência visual e conceitual, observa-se grande diversidade de categorização. Todos os países incluem alimentos ricos em amido como base da alimentação, mas orientações quantitativas são pouco frequentes. A menção a grãos integrais é desigual entre as regiões, sendo mais comum em países europeus (70%) e da América do Norte (100%).
Frutas, verduras e legumes são sempre incentivados, com ênfase no consumo diário, variado ou abundante, embora recomendações quantitativas claras apareçam apenas em um terço das diretrizes. Orientações sobre formas de preparo, diversidade de cores ou justificativas nutricionais são menos frequentes e variam entre os países.
A maioria das diretrizes inclui alimentos proteicos: carnes, peixes, aves, ovos e leguminosas. As mensagens mais recorrentes incentivam o consumo de carnes magras, maior ingestão de peixes e moderação no consumo de carnes vermelhas e processadas, especialmente em países europeus. Em cerca de metade dos países, fontes proteicas vegetais e animais são apresentadas como alternativas intercambiáveis, embora essa abordagem não seja homogênea. Laticínios costumam ser tratados como grupo separado, com recomendações de consumo regular e, frequentemente, preferência por versões com menor teor de gordura.
Gorduras e óleos são majoritariamente abordados com foco na limitação do consumo, mas menos da metade indica a qualidade das gorduras. Mensagens sobre gorduras insaturadas aparecem em 29% dos países, enquanto 35% agrupam gorduras saudáveis e não saudáveis, muitas vezes com instruções ambíguas sobre moderação.
Todos os países incluem mensagens de limitação do consumo de sal, açúcar e gordura, muitas vezes de forma combinada (70% dos países), embora apenas uma parcela das diretrizes apresente limites quantitativos alinhados às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). A menção explícita a alimentos ultraprocessados ainda é rara (28% dos países), assim como orientações específicas sobre grãos refinados ou alimentos de origem animal de forma mais ampla.
No que diz respeito ao alinhamento com a OMS, há cobertura praticamente universal para o incentivo ao consumo de frutas e hortaliças, bem como para a limitação de açúcares, sal e gorduras. No entanto, aspectos como o consumo de oleaginosas, o uso de sal iodado, a qualidade das gorduras e a proporção ideal entre fontes animais e vegetais permanecem pouco consensuais. A sustentabilidade ambiental é abordada explicitamente em apenas quatro países, geralmente associada à redução do consumo de carne, especialmente a vermelha. Questões socioculturais aparecem de forma ampla, mas temas como equidade, inclusão de povos indígenas, transição nutricional e o papel dos ultraprocessados recebem atenção desigual.
Os autores concluem que, apesar do alinhamento geral com as recomendações da OMS, ainda há incertezas relevantes sobre a definição operacional de “dieta saudável”, especialmente no que se refere a porções, tipos de gordura, grãos integrais e alimentos de origem animal. Destacam, ainda, a necessidade de diretrizes futuras incorporarem de forma mais sistemática aspectos ecológicos, sociais e culturais, além de reconhecerem as transformações recentes dos sistemas alimentares.
Trabalho mais recente, de 2021, encontrou resultados semelhantes. Trata-se do artigo “Comparison of dietary guidelines among 96 countries worldwide”. Os autores concluem que a maioria dos países recomenda maior consumo de frutas e vegetais, incentivo à diversidade alimentar, limitação da ingestão de sal, açúcar, óleos e álcool e ingestão adequada de água, em geral alinhados às diretrizes de uma alimentação saudável. Em alguns casos, as diretrizes incorporam ainda preocupações ambientais, sociais e econômicas, como no Brasil, que recomenda evitar alimentos ultraprocessados, incentiva refeições em companhia e associa a alimentação saudável à sustentabilidade.
De modo geral, a maioria das diretrizes disponíveis na literatura compartilha o mesmo norte: consuma mais verduras e legumes; limite açúcar, gordura e sal; pratique atividade física; ingira água regularmente; e, sempre que possível, prefira proteínas magras e grãos integrais em substituição aos refinados.
Entretanto, observa-se uma disparidade entre teoria e prática. De acordo com dados do World Obesity Day 2026, mais de 1 bilhão de pessoas vivem atualmente com obesidade. Em 2025, estimava-se que 543 milhões de crianças e adolescentes estivessem com sobrepeso ou obesidade, e anualmente, ocorrem 1,7 milhão de mortes prematuras por doenças crônicas não transmissíveis relacionadas ao excesso de peso.
Adesão às diretrizes
Um estudo publicado em 2022, intitulado “Awareness of the MyPlate Plan: United States, 2017–March 2020”, estimou o nível de conhecimento e a adoção do MyPlate (o antigo gráfico das diretrizes alimentares americanas) entre adultos norte-americanos com mais de 20 anos. A amostra incluiu 9.232 adultos. Durante entrevistas domiciliares, os participantes relataram se conheciam o MyPlate e avaliaram a qualidade da própria dieta.
A taxa de resposta foi de aproximadamente 48%, e as análises foram ajustadas por idade, renda, escolaridade e estado civil. Entre 2017 e março de 2020, 25,3% dos adultos tinham ouvido falar do MyPlate, com maior prevalência entre mulheres. O conhecimento diminuiu com a idade, de 32,6% entre 20-39 anos para 16,3% entre indivíduos com 60 anos ou mais.
Entre os adultos que conheciam o MyPlate, apenas cerca de um terço relatou tentar seguir as recomendações, proporção maior entre mulheres. Quanto à qualidade da dieta autoavaliada, 7,2% a classificaram como excelente, 60,5% como muito boa ou boa, 24,2% como regular e 6,1% como ruim. Adultos que avaliavam sua dieta como pior apresentaram menor probabilidade de conhecer ou de tentar seguir o MyPlate.
No contexto brasileiro, a adesão ao Guia Alimentar para a População Brasileira foi analisada no estudo transversal “Adesão ao Guia Alimentar da População Brasileira e aspectos sociodemográficos: Estudo Brazuca”. O estudo é um recorte de outra pesquisa intitulada “Insegurança alimentar, condições de saúde e de nutrição em população adulta e idosa de uma capital do Nordeste do Brasil: Estudo Brazuca Natal”, conduzida com adultos e idosos do município de Natal/RN.
A adesão ao Guia foi mensurada por meio de uma escala multidimensional composta por 24 itens, distribuídos nas quatro dimensões propostas pelo documento (planejamento, organização doméstica, escolha dos alimentos e modos de comer), com pontuação máxima de 72 pontos. Escores inferiores a 32 indicaram baixa adesão, entre 32 e 41, média, e superiores a 41, alta adesão. Participaram 411 indivíduos, com média de idade de 54,5 anos, predominância de mulheres, autodeclarados pretos ou pardos, residentes com companheiro e com ensino fundamental completo.
A adesão ao Guia foi maior entre idosos, mulheres e indivíduos com maior escolaridade e renda per capita, e menor entre aqueles com renda inferior a 25% do salário mínimo e sem acesso diário à água. Os autores sugerem que mulheres e idosos apresentam melhor adesão por maior preocupação com a saúde, enquanto limitações econômicas e de acesso a recursos básicos dificultam a implementação das recomendações.
Barreiras
A pesquisa “Barriers and Promoters of Healthy Eating From the Perspective of Food Environment Perception: From Epidemiology to the Talking Map” investigou barreiras e facilitadores da alimentação saudável entre usuários da Atenção Primária à Saúde, considerando seus ambientes alimentares.
Para a investigação, aplicou-se um questionário conhecido como Perceived Nutrition Environment Measures Survey (NEMS-P), que avalia acesso, disponibilidade e promoção de alimentos no domicílio e no entorno.
Na análise quantitativa, baseada na amostra final de 176 indivíduos, as principais barreiras percebidas incluíram a alta disponibilidade de alimentos ultraprocessados no domicílio e nos estabelecimentos, seu destaque visual e facilidade de acesso, o alto preço de frutas e hortaliças, a baixa leitura de rótulos, o acesso mais fácil a alimentos não saudáveis, promoções comerciais, compras em grandes supermercados e o uso frequente de serviços de entrega. Também foram citados o sabor desagradável e a aparência insatisfatória de frutas e hortaliças.
A análise qualitativa revelou dificuldades em manter refeições compartilhadas devido a rotinas distintas, além da associação do uso de celulares e televisão durante as refeições a uma experiência alimentar negativa. Destacou-se ainda a perda de práticas, como hortas domiciliares. Apesar da preferência por alimentos in natura, as compras ocorreram majoritariamente em supermercados, motivadas por preços e promoções, mesmo com maiores custos de deslocamento. Estabelecimentos próximos às residências foram descritos como fortemente dominados por ultraprocessados, dispostos de forma destacada e percebidos como prejudiciais à saúde.
A falta de tempo foi citada como um fator limitante tanto para o preparo de alimentos no domicílio quanto para as compras. Muitos relataram não preparar alimentos frescos por não estarem familiarizados com seu aroma e sabor, recorrendo com frequência a serviços de entrega.
Espero que, em algum momento, as diretrizes, tão importantes para nortear a alimentação saudável da população e as políticas relacionadas a esse tema, saiam da teoria e passem, de fato, a fazer parte do dia a dia dos cidadãos, seja por meio da educação nutricional, seja pela possibilidade de aquisição de gêneros alimentícios saudáveis — dois aspectos distintos, mas que, ao menos, podem aumentar a aderência a uma alimentação mais equilibrada e, quem sabe, finalmente enfrentar as diferentes formas de desnutrição. Obviamente, essa melhora, isoladamente, não resolverá o problema da obesidade, mas, ao menos, indicará que estamos no caminho correto.
Mauro Proença é nutricionista
REFERÊNCIAS
FAO. Dietary Guidelines. Disponível em: https://www.fao.org/nutrition/education/dietary-guidelines/background/en/#/.
HERFORTH, A. et al. A Global Review of Food-Based Dietary Guidelines. Advances in Nutrition, Volume 10, Issue 4, July 2019, Pages 590-605. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2161831322004033#/.
RONG, S. et al. Comparison of dietary guidelines among 96 countries worldwide. Trends in Food Science & Technology. Volume 109, March 2021, Pages 219-229. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0924224421000212#/.
World Obesity Day 2026. Disponível em: https://www.worldobesityday.org/#/.
WAMBOGO, E. et al. Awareness of the MyPlate Plan: United States, 2017-March 2020. Natl Health Stat Report. 2022 Nov:(178):1-14. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36454172/#/.
FERNANDES, M. et al. Adesão ao Guia Alimentar da População Brasileira e aspectos sociodemográficos: Estudo Brazuca. Rev. Saude Publica. v.59. e16. 2025. Disponível em: https://www.scielosp.org/pdf/rsp/2025.v59/e16/pt#/.
AVELAR, B. et al. Barriers and Promoters of Healthy Eating from the Perspective of Food Environment Perception: From Epidemiology to the Talking Map. Int. J. Environ. Res. Public Health 2025, 22(7), 1109. Disponível em: https://www.mdpi.com/1660-4601/22/7/1109#/.
