
Existe uma piada que já ouvi diversas vezes de alguns colegas físicos: quando me perguntam qual é o meu signo, costumo responder “dinossauro”; a pessoa geralmente retruca dizendo que esse signo não existe; e, então, concluo: “exatamente como todos os outros”.
A resposta dos físicos costuma ser um jeito descontraído de indicar que a astrologia não funciona, uma vez que suas afirmações não têm base em boas evidências científicas. Portanto, que diferença faz informar o signo? Mas, como eu mesmo já dei essa resposta algumas vezes, sei bem que, ou a pessoa curiosa percebe o ceticismo inerente e encerra o assunto com um sorriso amarelo, ou insiste em apontar uma diferença importante: “mas não existe a constelação de dinossauro!”, em uma tentativa de mostrar que deve haver alguma conexão verdadeira entre os signos da astrologia e o mundo real.
Bom, de fato, essa conexão existe. Mas as conexões entre o Sol e as constelações, necessárias para o desempenho astrológico, estão atualmente defasadas. E isso faz com que uma parcela de seus defensores – aquela que costuma bradar aos quatro ventos que um dos aspectos “mais fortes” para validar a astrologia é o de que ela estaria de acordo com dados astronômicos verdadeiros – sustente que a astrologia precisa ser corrigida. Mas será mesmo que reconhecer a “existência” das constelações do zodíaco e aplicar correções astronômicas modernas à astrologia seria suficiente para “resgatá-la” como uma área de estudos validada cientificamente? Vejamos.
As constelações
Já que comecei o assunto com uma piada, aqui vai mais uma: além de físico, também sou piloto privado de avião, e nos momentos iniciais do curso, os instrutores ensinam uma das coisas a não fazer a partir do “caso” em que um controlador de tráfego aéreo solicita ao piloto que informe sua posição durante o voo; o piloto, novato, responde estar “próximo de uma grande nuvem em formato de leão”; o controlador pede que o piloto seja mais específico; e o piloto responde: “a nuvem que se parece com o Simba”.
Para os pilotos em formação, essa anedota é o ponto de partida para aprender como deve (e como não deve) ser feita a comunicação com os órgãos de controle; para este artigo, ela é um lembrete evidente de que as pessoas tendem a identificar formas que lhes são familiares em padrões aleatórios ao seu redor, fenômeno conhecido como pareidolia. Reconhecer imagens nas nuvens é um exemplo, e se surpreender com uma forma de face no relevo de Marte é outro.
Vivemos em uma galáxia, a Via Láctea. Com mais de 100 bilhões de estrelas, o Sol é uma delas, localizado em uma região intermediária, mais ou menos no meio do caminho entre o centro e a borda. Ao redor dele, no Sistema Solar, estamos nós, no planeta Terra, viajando em uma órbita que completa uma volta a cada (como logo veremos) ano, aproximadamente.
Tal como se podem “ver” objetos conhecidos em nuvens, o fato é que diferentes culturas, ao longo da História, contemplaram o céu noturno e perceberam que, ao estabelecer linhas imaginárias entre os “pontos brilhantes” (as estrelas visíveis), era possível também formar figuras familiares. Assim, batizaram diferentes grupos de estrelas, as constelações, com nomes de animais, deuses, objetos e heróis.
O padrão atual vem da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês): uma publicação de 1930 estabeleceu que o céu seria dividido em 89 regiões oficiais, como uma colcha de retalhos; a cada região seria atribuído o nome de uma constelação diferente; a exceção ficou por conta da constelação da Serpente, que ocupa 2 regiões de modo descontínuo, fazendo com que o total de constelações convencionadas atingisse 88. As constelações que a astrologia associa aos signos solares estão na lista; a do dinossauro, não está.
Ponto para a astrologia? Ainda não. É bom lembrar que as estrelas vistas próximas umas das outras no céu não necessariamente estão próximas entre si no espaço. Tomemos o Cruzeiro do Sul: na ponta de baixo da “cruz”, a Estrela de Magalhães está a mais de 300 anos-luz da Terra; do outro lado, na ponta de cima, a estrela Rubídea está a mais de 200 anos-luz da primeira (1 ano-luz é uma unidade de distância equivalente a cerca de 9,5 trilhões de quilômetros!).
Ou seja, isso nos mostra que, se a objeção à conclusão da piada que inicia este artigo – a de que “a constelação do dinossauro” não existe – for uma tentativa de sustentar uma eventual validade científica da astrologia, então o reclamante desconhece o óbvio: nenhum dos desenhos atribuídos às constelações, tal como ocorre para o Simba na nuvem perto do piloto, existem como “objetos naturais”, e nenhum deles é necessariamente formado por estrelas que estão próximas entre si. As constelações são apenas produtos do intelecto de quem as define. Assim, argumentar que desenhos arbitrários no céu se relacionam com a personalidade das pessoas na Terra é semelhante (e igualmente sem sentido) a aventar que a demarcação arbitrária de fronteiras entre países deve afetar a atividade vulcânica.
Os signos solares
Do pacote de 88 constelações definidas pela IAU, apenas 12 fazem parte do grupo que dão nome aos signos solares da astrologia: capricórnio, aquário, câncer, touro, leão etc. Mas o que têm de especial? São as chamadas constelações do zodíaco, e todas elas ficam “atrás” do Sol em algum momento do ano.
Funciona assim: o Sol é a estrela mais próxima da Terra. Há muitas outras estrelas na nossa galáxia, todas muito mais distantes da Terra do que o Sol. Assim, enquanto o nosso planeta segue seu caminho ao redor do Sol, diferentes grupos de estrelas (diferentes constelações, portanto) vão passando “atrás” dele, do ponto de vista terrestre. É exatamente por isso, aliás, que as estrelas que vemos à noite são diferentes no inverno e no verão: se o grupo de estrelas que, em determinado momento do ano, está “atrás” do Sol se modifica ao longo do ano, então, obviamente, o grupo de estrelas que está “do outro lado” da Terra (oposto ao Sol) também muda, e são exatamente essas que podemos enxergar no céu noturno (neste link, um diagrama pode ajudar a entender o processo). O signo solar, então, é definido no nascimento do indivíduo: para isso, basta verificar qual é a constelação do zodíaco “atrás” do Sol no momento.
Embora pareça simples, os conflitos dessa ideia com a astronomia moderna são vários: o primeiro é que as constelações zodiacais, definidas pela IAU, não são todas do mesmo tamanho, de modo que o Sol não “fica na frente” delas por iguais intervalos de tempo. Com base em definições modernas, o Sol fica cerca de 25 dias em áries, e o tempo em touro é quase duas semanas maior, por exemplo; na astrologia, por outro lado, as datas de nascimento consideradas para cada signo solar correspondem a períodos praticamente iguais.
O segundo é que a IAU define 13 constelações atravessadas pelo caminho aparente do Sol no céu: as 12 que as pessoas comumente já sabem (e associam aos signos) e mais a constelação do ofiúco (ou serpentário), que fica “atrás” do Sol no início de dezembro.
E o terceiro é que o intervalo de tempo que a Terra leva para completar uma volta ao redor do Sol, chamado de “ano sideral”, é de, aproximadamente, 365 dias 6 horas e 9 minutos, mas o ciclo das estações do ano (que, portanto, define o “ano” do nosso calendário, chamado de “ano solar”, ou de “ano tropical”) corresponde a cerca de 365 dias 5 horas e 48 minutos. Fugindo dos detalhes, basta dizer que o motivo da diferença está no chamado “movimento de precessão” terrestre, o que faz com que, ao longo de vários séculos, pela diferença acumulada, a mesma posição da Terra em relação ao Sol e às constelações se repita em datas diferentes do calendário. Por conta disso, as datas de nascimento correspondentes a cada signo solar precisariam de uma atualização periódica, o que não é feito pela astrologia: enquanto alguém que nasceu em 2025, no dia 5 de agosto, por exemplo, será considerado leonino, já sabemos que o Sol, atualmente, nesse dia, está em câncer.
Então, em tese, é possível apontar conexões verdadeiras entre elementos astrológicos e astronômicos, como as constelações do zodíaco, e o signo solar seria atribuído a partir de uma posição astronômica aparente do Sol em relação às estrelas no fundo. O problema é que, como vimos, embora as conexões existam, estão bastante defasadas.
Astrologia tem conserto?
Em relação à necessidade de se atualizar a astrologia, já me deparei com defesas de ideias relacionadas a duas possibilidades: aqueles que dizem que não é necessário ajustá-la apontam que as definições astrológicas não precisam estar de mãos dadas com as da comunidade científica internacional da astronomia. A astrologia, neste caso, poderia guardar apenas uma conexão simbólica com os astros e, assim, pouco importa o que estabelece a IAU, já que o sistema de crenças astrológico pode simplesmente definir suas constelações do zodíaco da forma como bem entender.
Por outro lado, os que acham procedente atualizá-la apostam na necessidade de manter um acordo fidedigno entre as definições astrológicas e os eventos que ocorrem no céu. Convenhamos, dá um certo gosto amargo na boca aprender a conexão verdadeira entre astrologia e astronomia, como na definição do signo solar, por exemplo, para, logo em seguida, descobrir que essa conexão já não condiz com a realidade.
Vamos aprofundar o debate? Claro que não. E por quê? Porque não é isso que faz com que a astrologia “funcione” ou não.
A astrologia parece funcionar. Basta perguntar na sua roda de amigos para verificar que sempre tem alguém que já teve acesso a um serviço astrológico, como a interpretação do mapa astral, e que considerou as afirmações contidas ali como um retrato bastante fiel dos seus traços de personalidade. O problema é que “evidências” desse tipo não são boas: embora a experiência pessoal possa ser altamente eficaz para fazer com que uma pessoa acredite ou não em alguma coisa, estudos de tendências em grupos populacionais precisam ser avaliados em estudos com uso adequado de estatística e muitos participantes.
Joãozinho pode ter passado embaixo de uma escada e perdido o emprego no dia seguinte, mas quantas pessoas passam embaixo de escadas sem que nada de ruim lhes aconteça? É só por meio da avaliação de grandes grupos que podemos afirmar, por exemplo, que, nos Estados Unidos, a predominância da crença em astrologia é duas vezes maior entre mulheres do que entre homens, na faixa etária entre 18 e 49 anos.
Portanto, quando se tenta validar afirmações astrológicas, como as de que as posições dos astros geram tendências de personalidade, isso só se tornará evidente, cientificamente, quando aparecerem resultados de estudos que avaliam as características de muitas pessoas nascidas sob o mesmo signo e as comparem com as de outras de signos distintos; ou quando aparecerem resultados convincentes de que os métodos astrológicos são plenamente capazes de conectar corretamente, às cegas, para um número suficientemente grande de indivíduos (para evitar resultados positivos por acaso) aos seus mapas astrais e traços característicos de personalidade.
Felizmente, já existem estudos de boa qualidade que se propuseram a investigar essas questões, e alguns deles foram discutidos em outros artigos aqui da Revista Questão de Ciência (leia aqui e aqui, por exemplo). Até agora, nada convincente apareceu. Junte-se a isso o fato de que não há qualquer mecanismo plausível, conhecido pela ciência, que faça com que a posição dos astros se desdobre em características de personalidade das pessoas e se torna claro o motivo pelo qual a astrologia costuma ser claramente caracterizada como uma pseudociência.
Portanto, deveria a astrologia se ajustar aos dados astronômicos mais recentes? Para a ciência, a resposta é que... tanto faz! Como suas afirmações não são baseadas em boas evidências, costumo dizer que, na disputa entre as propostas antagônicas sobre atualizá-la ou não, eu torço mesmo é pela briga.
Marcelo Girardi Schappo é físico, com doutorado na área pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente, é professor do Instituto Federal de Santa Catarina, participa de projeto de pesquisa envolvendo interação da radiação com a matéria e coordena projeto de extensão voltado à divulgação científica de temas de física moderna e astronomia. É autor de livros de física para o Ensino Superior e de divulgação científica, como o “Armadilhas Camufladas de Ciências: mitos e pseudociências em nossas vidas” (Ed. Autografia)
