Mudanças culturais e crise de fertilidade

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18 jun 2026
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população humana

Os cidadãos de países que alcançaram alguns dos maiores níveis de riqueza, liberdade individual e igualdade de gênero da história estão lentamente deixando de ter filhos e de se reproduzir. Coreia do Sul, Japão, Noruega, Itália: em ritmos diferentes, todos apresentam taxas de fertilidade muito abaixo do nível de reposição populacional. Um dos aspectos mais intrigantes dessa crise é que ela ocorre justamente nas sociedades mais educadas, seguras e tecnologicamente avançadas do planeta.

Durante décadas, as explicações enfatizaram fatores econômicos: custo de vida, urbanização, precarização do trabalho e dificuldade de conciliar carreira e filhos. E isso tudo, de fato, tem algum papel na crise de fertilidade. Mas talvez tenhamos de contemplar causas mais profundas e polêmicas. Segundo os autores do artigo Toward Individualistic Reproduction: Solving the Fertility Crisis Could Require a Further Marginalization of Men, talvez a crise da fertilidade tenha a ver com a própria natureza humana. O mesmo processo histórico que ampliou radicalmente a autonomia feminina pode ter alterado o equilíbrio do mercado amoroso moderno — produzindo menos casais estáveis, mais solteirice e populações cada vez menos capazes de se reproduzir.

 

Revolução sexual

Para entender o argumento, é preciso abandonar a tendência moderna de tratar relacionamentos amorosos como fenômenos puramente privados ou espontâneos. Durante quase toda a história humana, o casamento não dependeu apenas de romance: era parte de uma infraestrutura social — econômica, reprodutiva, política e comunitária. Em muitas sociedades, famílias, clãs ou comunidades inteiras participavam diretamente da escolha dos parceiros. O amor romântico podia existir, claro, mas alojado em estruturas muito mais rígidas de obrigação social, dependência econômica e necessidade material.

Os autores descrevem a história ocidental como uma sequência de revoluções sexuais. A primeira teria ocorrido quando a Igreja medieval enfraqueceu as estruturas tribais e consolidou a monogamia. A segunda emerge entre os séculos 18 e 19, com urbanização, individualismo e ascensão do amor romântico. Mas é a terceira revolução — após os anos 1960 — que muda radicalmente o cenário: mulheres passam a combinar autonomia econômica, contracepção eficaz, liberdade sexual e escolha individual de parceiros.

Esse ponto é central. Antes, rejeitar um parceiro podia significar pobreza, exclusão social ou extrema vulnerabilidade. Agora, em sociedades afluentes e relativamente seguras, o custo de permanecer solteira diminui drasticamente. Isso altera toda a dinâmica do mercado amoroso. Não porque mulheres não querem mais filhos, mas porque o número de homens tidos como parceiros desejáveis para relações duradouras estaria diminuindo, na medida em que as mulheres se tornam mais “empoderadas” — maior renda, maior nível educacional.

Essa situação cria um paradoxo. Os mesmos mecanismos históricos que produziram emancipação e liberdade podem estar comprometendo as condições sociais que sustentavam a formação de casais e a reprodução.

 

Sistemas de acasalamento

Para entender esse paradoxo, precisamos entender como a natureza humana interage com diferentes contextos. Essa interação leva à existência de diferentes estratégias reprodutivas ou sistemas de acasalamento. O primeiro é o de curto prazo, mais ligado à atração sexual imediata, indicador de qualidade genética, status, carisma, dominância e atratividade física. O segundo é o de longo prazo, associado à cooperação parental, estabilidade emocional, provisão de recursos e capacidade de sustentar vínculos duradouros. Durante grande parte da história humana, esses dois sistemas coexistiram em tensão permanente. A atração nem sempre apontava para os mesmos homens que seriam parceiros ideais para criar filhos.

Sociedades modernas altamente igualitárias alteraram o equilíbrio entre essas duas estratégias. Em contextos ancestrais, mesmo um parceiro apenas “razoável” podia representar proteção física, estabilidade material e sobrevivência para a mãe e os filhos. Mas, em sociedades contemporâneas, nas quais as mulheres têm renda própria, proteção estatal, acesso à educação e independência econômica, parte dessa necessidade estrutural desaparece. Isso altera o cálculo psicológico sobre o que conta como um parceiro “aceitável”.

Em outras palavras, muda o equilíbrio do mercado reprodutivo. A hipótese deles não é simplesmente que mulheres passaram a “preferir homens mais bonitos”. O ponto é outro: quando o custo de rejeitar parceiros medianos diminui, os padrões mínimos de aceitabilidade tendem a subir. Relações deixam de operar sob a lógica do “bom o suficiente” e passam cada vez mais a funcionar sob a lógica de otimização. Se a sobrevivência já não depende de um parceiro, torna-se mais racional esperar por alguém excepcional.

Isso ajuda a explicar o enfraquecimento do chamado assortative mating, o pareamento relativamente estável entre pessoas de valor social semelhante. Historicamente, casamentos funcionam como uma espécie de “fechamento de zíper”: indivíduos com níveis próximos de atratividade, status e recursos acabavam formando pares relativamente equilibrados. Mas fatores como aplicativos de namoro, hiperindividualismo e independência econômica feminina vêm tornando esse mecanismo menos eficiente. Mulheres passam a concentrar mais atenção em uma parcela menor de homens considerados altamente desejáveis, enquanto uma parcela crescente de homens deixa de ser vista como necessária — econômica, social ou romanticamente (uma queixa popular entre incels).

Assim, o problema contemporâneo não seria a ausência de homens, mas a perda de utilidade masculina nas sociedades em que mulheres já conseguem obter do Estado, do mercado e da própria carreira grande parte daquilo que, no passado, dependia de um parceiro masculino.

 

Marginalização masculina

A crise contemporânea dos relacionamentos cria uma nova forma de exclusão social masculina. “Marginalização masculina”, nesse contexto, não significa simplesmente dificuldades econômicas, perda de status profissional ou mulheres se reunindo para falar mal dos homens. A expressão refere-se à exclusão crescente de uma parcela de homens dos sistemas de intimidade, de pertencimento afetivo, de sexualidade, de casamento e de paternidade.

Durante séculos, a monogamia funcionou parcialmente como um mecanismo de estabilização do mercado sexual. Mesmo homens medianos — ou abaixo da média — ainda conseguiam se casar e ter uma família. Afinal, normas sociais relativamente rígidas limitavam a concentração extrema de parceiras num pequeno número de homens (muito diferente do que acontece em sociedades políginas, em que homens podem formar haréns). A modernidade desmonta esse mecanismo. Em mercados amorosos altamente individualizados, mais mulheres passam a competir pelos mesmos homens considerados excepcionais, enquanto uma parcela crescente de homens permanece solteira, sexualmente excluída ou incapaz de formar vínculos duradouros.

 

Reprodução sem casal

O que fazer diante desse cenário? Seria irrealista esperar um retorno aos padrões tradicionais de casamento e formação de família. Se o novo equilíbrio do mercado sexual produz menos pares estáveis — e se essa tendência continuar se aprofundando —, então sociedades de baixa fertilidade precisariam considerar alternativas.

A proposta central é o que os autores do artigo chamam de “reprodução individualizada”. Em vez de organizar a reprodução humana prioritariamente em torno do casal estável, os Estados poderiam oferecer suporte econômico e social robusto para que mulheres criem filhos sozinhas. Isso incluiria transferência de renda, moradia comunitária voltada para mães solo, redes permanentes de cuidado infantil e até novos formatos de convivência coletiva. A ideia básica é simples: se muitas mulheres desejam ter filhos, mas não conseguem encontrar parceiros considerados adequados, talvez a solução seja tornar a maternidade independente do casamento.

É impossível não perceber o caráter quase de ficção científica sociológica dessa proposta. Em vários momentos, o artigo especula sobre futuros próximos envolvendo automação econômica, inteligência artificial, robôs cuidadores e úteros artificiais. Os autores sugerem que, num cenário de abundância tecnológica, a dependência reprodutiva entre homens e mulheres poderia diminuir drasticamente. Mulheres poderiam se reproduzir sem parceiro fixo; homens, futuramente, talvez também. A família nuclear tradicional deixaria, então, de ser a unidade central da reprodução humana.

O feminismo moderno lutou para libertar mulheres da dependência econômica masculina. Agora, a continuidade demográfica das sociedades mais feministas talvez dependa da capacidade de completar esse processo — isto é, tornar possível a reprodução mesmo na ausência de vínculos conjugais estáveis. O que começou como emancipação da estrutura patriarcal poderia terminar numa reorganização radical da própria arquitetura da família humana.

Natureza e modernidade

Talvez a contribuição mais interessante do artigo esteja na maneira como descreve o choque entre a natureza humana e o ambiente moderno. A tese dos autores é de que homens e mulheres continuam tendo mecanismos psicológicos moldados em contextos ancestrais muito diferentes do mundo atual. O problema é que mudanças ambientais — contracepção, independência econômica, aplicativos de namoro e hiperindividualismo — podem reorganizar como essa mesma natureza humana se manifesta.

Na perspectiva evolucionista, mecanismos psicológicos não causam comportamentos fixos, mas respostas ao ambiente. Em contextos em que relacionamentos eram economicamente necessários, a formação de casais tendia a ser mais estável. Em sociedades modernas altamente individualizadas, essas mesmas predisposições podem gerar aumento da solteirice e queda da fertilidade. Mesmo simplificando fenômenos culturais complexos, o artigo levanta um paradoxo provocativo: talvez sociedades que maximizaram liberdade individual tenham se tornado menos capazes de reproduzir a si mesmas.

Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo

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