Kits de HCQ e ivermectina são ilusão perigosa na pandemia

Questão de Fato
2 jul 2020
piolho humano

No sábado, 27 de junho, o jornalista Alexandre Garcia, ex-repórter da Globo News, coordenou uma “live” em seu canal do YouTube com sete médicos, apresentando uma proposta de tratamento precoce para a COVID-19. Graças ao enorme apelo do assunto, o vídeo, no momento em que este artigo era escrito, já acumulava mais de 1.300.000 visualizações, mas seu conteúdo não corresponde aos fatos. A mensagem central de Garcia é de que existe um kit de medicamentos eficazes e seguros contra a COVID-19 para ser tomado já nos primeiros dias após o contágio, ou até para evitar a contaminação. A verdade, no entanto, é que o kit é inútil para o combate ao novo coronavírus e, também, potencialmente perigoso.

Segundo a totalidade das pesquisas científicas de boa qualidade disponíveis até agora, não existem, no mundo, medicamentos capazes de prevenir ou frear a evolução dessa doença. O protocolo proposto na “live” inclui desde medicamentos inicialmente apontados como “promissores” em estudos preliminares, realizados em cultura celular, como hidroxicloroquina (já descartada em estudos conduzidos em seres humanos), azitromicina (também já descartada pelos melhores estudos, e perigosa se tomada junto com hidroxicloroquina) e ivermectina, além de remédios de enjoo (plasil ou dramin), um antinflamatório (Celecoxibe), um anticoagulante (Clexane) e remédios para dor e febre (Paracetamol ou Dipirona).

O conteúdo produzido por Garcia, nesse contexto, é nocivo, porque as informações ali apresentadas estimulam a audiência a assumir comportamentos de risco, favorecendo a interrupção de medidas que, essas sim, são efetivas contra a COVID-19.

Os argumentos formulados pelos médicos, durante as mais de 2 horas da “live”, podem ser divididos em duas categorias: os que dizem que o kit funciona contra a doença (incluindo um médico de Porto Feliz-SP e outra do Pará) e os que dizem que os medicamentos não fazem mal (Incluindo um toxicologista e uma cardiologista). Vamos discutir primeiro se os medicamentos fazem mal.

Os estudos sobre isso ainda não são conclusivos. Como não são medicamentos novos e muita gente já os utiliza há anos, sabemos que, em determinadas dosagens e para certas condições, eles são até seguros. Os médicos repetem muito isso durante a “live”, e estão corretos. O problema é que os tratamentos propostos para COVID-19 envolvem dosagens muito superiores à dos tratamentos já conhecidos. A ivermectina, por exemplo, só se mostrou eficiente contra o SARS-CoV-2 (e apenas em culturas de células) numa concentração cem vezes maior do que a usada contra vermes.

Ok, não sabemos se o tratamento é tóxico, mas essa doença está matando pessoas agora. Não é melhor resolver o problema imediato, já que outros participantes da “live” mostraram o quanto o kit tem salvado vidas? É que, na verdade, o kit não tem salvado vidas.

Não temos acesso a todos os dados apresentados na “live” pelos médicos, mas fizemos um exercício só com os dados de Porto Feliz, que estão disponíveis na internet, para dar ideia do que estamos falando. Comparamos o número de casos de COVID-19 em Porto Feliz (SP), onde o kit para tratamento de casos iniciais é distribuído desde maio, com outras cidades de mesmo tamanho do interior paulista.

Cidades paulistas de 50 mil a 60 mil habitantes têm, em média, 96,3 casos da doença. Porto Feliz tem 234 casos, mais que o dobro do esperado. Isto indica que o kit não previne contágio pela COVID-19. E quanto aos óbitos? Porto Feliz tem taxa letalidade compatível com a das demais cidades de mesmo porte. Se o kit fizesse efeito, esperaríamos ver Porto Feliz com muito menos casos e óbitos do que cidades semelhantes. Não é o que se verifica: na verdade, o número de infecções é próximo ao de cidades como Franca (SP), com sete vezes mais habitantes.

Mas então, haveria má-fé dos participantes na “live”? Não necessariamente. Acreditamos mais que haja desejo de uma solução simples e um viés de observador: as pessoas desejam ter encontrado uma solução geral baseada em experiências pessoais restritas, esquecendo convenientemente os casos que não se enquadram no resultado desejado.

Também fica evidente, no vídeo, uma agenda política. Alguns dos participantes têm íntima relação com o governo federal, que desde março advoga em favor da cloroquina e do fim do isolamento social. Uma das participantes, Nise Yamaguchi, foi cotada para ministra da Saúde e frequentemente oferece conselhos na área de saúde a Bolsonaro. Alexandre Garcia é ferrenho defensor do presidente e foi porta-voz do presidente João Figueiredo, nos anos finais da ditadura militar.

Um último ponto importante de ressaltar. Em tom jocoso, a certa altura Garcia diz que todo médico prioriza a prevenção, e não o tratamento, das doenças. Então aponta que nenhum governador tem se mostrado preocupado com as opções de prevenção que têm sido propostas, apenas com respiradores mecânicos e leitos de UTI para o tratamento tardio. Isso não é verdade.

Desde o início temos visto governos muito preocupados com medidas preventivas, mas aquelas que funcionam. Como nenhuma droga comprovadamente funciona, a prevenção válida é a higiene das mãos, uso de máscara e o distanciamento social, ações reforçadas faz tempo.

Infelizmente a “live” teve uma enorme visibilidade e desinforma muita gente. O enorme número de casos em Porto Feliz é um exemplo do risco que isto representa. Talvez essa incidência tão alta da doença no município paulista se deva a uma falsa sensação de segurança trazida pelo kit anunciado pela prefeitura.

Outro risco que já está se materializando é de que pessoas não aceitem participar de ensaios clínicos de outros procedimentos experimentais, porque sentem que existe já uma solução definitiva. Com isso, deixamos de testar outros protocolos que poderiam se tornar a verdadeira solução contra o SARS-CoV-2. As perdas são enormes.

 

Eduardo Bessa, biólogo formado pela Universidade de São Paulo, é professor de Ciências Naturais na Universidade de Brasília, onde coordena um grupo de estudantes participantes do Grupo PET Ciências que derruba Fake News, e adapta medidas sanitárias à realidade da periferia do DF

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