Lições do embate com a negação climática

Questão de Fato
18 fev 2020
deserto

 

Neste artigo, usaremos deliberadamente o termo negação climática em vez de ceticismo climático, que é de fato a expressão mais usada. Na verdade, o ceticismo é uma atitude positiva que deve ser encorajada. Nas ciências, negação designa "a rejeição de fatos e conceitos incontestáveis e amplamente apoiados pelo consenso científico em favor de ideias radicais e controversas". Essa é a estrutura que enfrentamos diante do impacto das atividades humanas no clima.

As discussões em torno da questão das mudanças climáticas são acaloradas. Algumas têm a ver com quais ações a serem tomadas ou quais são as prioridades em questão – e, sendo assim, vão além do campo estrito da ciência. O debate tem mais a ver com valores, economia, escolhas políticas ou sociais do que com ciência. Mas ainda há quem questione o consenso científico descrito nos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), duvidando da existência do próprio aquecimento global, rejeitando o papel das atividades humanas no aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera e, frequentemente, trivializando o impacto que o CO2 da atmosfera tem no clima.

Historicamente, na França, o maior apóstolo dessa posição tem sido Claude Allègre, um respeitado cientista especializado em geofísica que se tornou conselheiro de Lionel Jospin (primeiro-ministro entre 1997 e 2002) e, em seguida, ministro da Educação. Depois de seus anos no governo e de encerrar a carreira científica, ele escreveu vários livros e apareceu com frequência na mídia para negar ou minimizar as causas humanas das mudanças climáticas.Claude Allègre desapareceu repentinamente da mídia por questões de saúde.

O outro grande apoiador científico dessa posição é Vincent Courtillot, colega de Claude Allègre no Institut de Physique du Globe de Paris. Courtillot não escreveu livros para o público em geral focados nesse assunto e merece crédito por ter seguido os padrões do debate científico, submetendo algumas de suas hipóteses à revisão por pares para publicação em periódicos especializados. As ideias expostas em suas publicações, que enfatizam a contribuição do Sol para as mudanças climáticas, foram rapidamente rejeitadas, por causa de erros metodológicos [1]. No entanto, suas palestras foram amplamente transmitidas e assistidas no YouTube.

Nelas, ele expõe teorias que vão muito além do que ele próprio publicou, e que parecem ser infundadas. Allègre frequentemente sugere, por exemplo, uma "pausa" no aquecimento global entre 1998 e 2013, um período de 15 anos em que as temperaturas globais médias mostravam relativa estabilidade, mas limita a comparação ao primeiro ano, excepcionalmente quente devido a um intenso efeito do El Niño. A verdade é que os anos seguintes (2015 a 2017) mostraram claramente que o aquecimento global não parou em 1998, confirmando as projeções climáticas. Na escala de tempo de décadas, as temperaturas crescentes observadas seguem as previsões das primeiras simulações climáticas realizadas na década de 1980 e outras, realizadas no âmbito do IPCC [2].

Depois de alguns anos, François Gervais, professor emérito da Universidade de Tours, entrou na briga. Suas duas obras principais são L'Innocence du carbone: L'effet de serre remis en question [A Inocência do Carbono: O efeito estufa colocado em questão, em tradução livre], de 2013, e L'urgence climatique est un leurre [A Emergência Climática é uma Ilusão, em tradução livre], de 2018. Este último foi amplamente abordado na mídia e levou o autor a muitas conferências que podem ser encontradas no YouTube.

Propusemo-nos a analisar dois exemplos que ilustram os procedimentos do autor para transmitir uma mensagem que vai contra o estado do conhecimento científico, e pode facilmente enganar um público insuficientemente informado, mesmo que tenha sólida base científica [3] [4].

A realidade dos modelos de previsão e da mudança climática

No último relatório do IPCC, publicado em 2013 [5], a velocidade observada de aquecimento é comparada à esperada por outros modelos de simulação climática. Foram considerados três períodos. Durante o mais longo (1951-2012: c), a taxa de aquecimento (graus por década) está dentro dos valores da faixa mais alta do modelo. Em um período mais curto e, portanto, menos representativo (1984-1998: b), a tendência está na faixa alta dos valores modelados. Por outro lado, no período de "pausa" mencionado acima (1998-2012), o aumento está dentro do limite inferior ao previsto pelos modelos. É normal que a variabilidade natural do clima tenha influência na tendência calculada para curtos períodos. Entretanto, no livro recente de Gervais (Figura 4, página 61) e em suas participações recentes da mídia, ele apenas mostra o gráfico referente a esse terceiro período (Figura a), sem mencionar os outros dois. Gervais, então, afirma que os resultados do modelo são contraditórios pela observação e que o clima é, portanto, muito menos sensível ao CO2 do que o que o IPCC aponta. Este não é realmente o caso, uma vez que a tendência de longo prazo nas mudanças climáticas está dentro do intervalo previsto pelos modelos. 

 

gráfico clima 1

 

 

O efeito estufa

O efeito estufa é um fenômeno cujo princípio é bem entendido há mais de dois séculos, e que foi quantificado há décadas [6]. Um aumento no efeito estufa na troposfera (a camada de 10 quilômetros de espessura da atmosfera em que vivemos) leva a um aumento das temperaturas. Por outro lado, na estratosfera (a camada atmosférica acima da troposfera que atinge uma altitude de até 50 km), um aumento na concentração de C02 provoca uma queda nas temperaturas, dadas as mesmas condições. Na prática, a temperatura da estratosfera é impulsionada sobretudo pela concentração de ozônio (03), ela própria influenciada por mudanças na radiação solar e reações químicas, dependendo da composição da atmosfera. 

François Gervais mostra temperaturas estratosféricas medidas por satélite. Ele afirma que os "modelos do IPCC" devem prever uma variação máxima nessa camada (sem deixar claro se essa variação deve aumentar ou diminuir a temperatura) [7], enquanto as observações mostram raras mudanças nos últimos 20 anos. É aqui que Gervais vê provas de que a teoria do efeito estufa é falsa. A verdade é que os mesmos modelos do IPCC, cujas projeções mostram um aumento na temperatura da superfície, mostram claramente estabilidade nas temperaturas da estratosfera nos últimos 20 anos. As medidas feitas por François Gervais para desqualificar os modelos, embora nunca apresentem seus resultados, criam uma refutação adicional à sua posição: os “modelos do IPCC” reproduzem não apenas o aumento das temperaturas da superfície, mas também suas variações na estratosfera. 

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Discurso na mídia 

A situação mudou muito em 15 anos. Hoje, a esmagadora maioria dos jornalistas cita o consenso científico e não recorre a forças obscuras ou a um grande lobby ecológico para interpretar o consenso vigente. No que diz respeito aos principais debates da sociedade, isso é uma exceção à regra. Os leitores da Science et pseudo-science conhecem as transgressões da mídia em assuntos como vacinas, homeopatia, transgênicos ou o impacto das ondas eletromagnéticas em nossa saúde. Infelizmente, a apresentação da mídia sobre esses tópicos está muito longe de relatos fiéis sobre o estado do conhecimento científico. Podemos assim dizer que, quando se trata de clima, os cientistas venceram a luta com a mídia, mesmo que a batalha prossiga em muitas outras frentes. 

Essa "vitória da mídia" provavelmente se deve, pelo menos em parte, à existência do IPCC e, mais especificamente, à redação de um "Resumo para os formuladores de políticas" descrevendo o consenso científico e apontando claramente o grau de confiança que existe nos diferentes assuntos abordados. O documento é acessível a um público amplo (os resumos são direcionados a leitores com formação em ciências equivalente à do ensino médio) e, portanto, os jornalistas podem consultá-los sem precisar ler, entender e avaliar as publicações originais voltadas para um público totalmente diferente. Será que deveria haver um equivalente do IPCC que pudesse ser usado como referência em assuntos como transgênicos ou o impacto na saúde de ondas eletromagnéticas emitidas por telefones celulares?

 

François-Marie Bréon é pesquisador do clima no Laboratoire des Sciences du Climat et de l’Environnement. Também é membro ativo da Association Francaise pour l’Information scientifique, um grupo cético que promove a ciência na França. O artigo pode ser lido em sua versão original em francês, com mais referências, neste link.

 

REFERÊNCIAS

 

1 | Os Chevaliers da Ordem de Terre Plate em realclimate.org

2 | Climate model projections compared to observations em realclimate.org, que atualiza regularmente sua comparação das projeções climáticas anteriores com o clima observado (em inglês).

3 Jean-Claude Bernier, «COP21 : le doute scientifique est-il encore possible?», Actualités Chimiques, boletim da Société Chimique de France, junho de 2016. Em lactualitechimique.org

4 Philippe Colomban, «CO2 mon amour», resenha do livro de François Gervais «L’innocence du carbone». Actualités Chimiques, boletim da Societé Chimique de France, dezembro de 2018. Em lactualitechimique.org

5 | GIEC 2013: Changement climatique. Les éléments scientifiques. Resumo para formuladores de políticas em ipcc.ch

6 | Dufresne, JL and J Treiner, L’effet de serre atmosphérique: plus subtil qu’on ne le croit !; La Météorologie, 72, fevereiro de 2011.

7 | François Gervais - L’urgence climatique est un leurre em youtube.com, começando no minuto 40.

 

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