Os nazistas tinham uma "cura secreta" para o câncer?

Questionador questionado
3 set 2020
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Charles Chaplin

 

 

"A arma escondida por Hitler que pode matar células cancerosas"

Esse é o título de um vídeo que foi postado no dia 31 de julho de 2020 no YouTube e que já contava com quase 30 mil visualizações até a data de conclusão deste artigo. Pelo título e pela descrição do vídeo, você pode imaginar que se trata de sensacionalismo barato, prometendo métodos milagrosos (e falsos) para prevenir e até curar o câncer, ao alcance de qualquer um. E é só isso mesmo.

Se quiser mais detalhes, continue lendo.

Antes de assistir ao vídeo, decidi ler os comentários, o que me surpreendeu positivamente logo de cara. Pessoas indignadas bradando “Esse vídeo é a maior enganação! Prometem revelar o segredo de graça, mas no fim você precisa pagar uma assinatura mensal”.

Em seguida, uma enxurrada de comentários como “Vídeo denunciado por charlatanismo” ou ainda “uma vergonha oferecer falsa esperança para familiares que enfrentam essa terrível doença”. O que se pode ver é uma mistura da indignação de algumas pessoas, frustradas pelo “segredo revelado” não ser de graça, e outras que apontam as diversas distorções da ciência apresentadas no vídeo.

Claro que tem o pessoal que defende o tal tratamento. Os argumentos: é uma técnica antiga, foi descoberta por um ganhador do Nobel; que a maligna indústria farmacêutica não quer que o vídeo se espalhe. O próprio apresentador do programa avança nessa direção, logo no início do vídeo:

Até mesmo agora, enquanto você nos assiste, há um poderoso setor da mídia interessado em manter a informação escondida, e eu não ficaria nada surpreso se este vídeo for removido da internet nas próximas horas”.

Mas o que é que Hitler escondeu por tanto tempo que é capaz de matar células cancerosas? Por que essa informação foi escondida (será que foi mesmo?) por tanto tempo? Quanto custa essa informação? Fique até o final do texto e descubra tudo isso de graça! Sem enganação! E o melhor, sem precisar assistir ao vídeo, que é chatíssimo!

 

Ouriços, ciência e câncer

Para nos situarmos, devemos recordar a história da pesquisa moderna do câncer, que começa com o ouriço-do-mar. Na primeira década do século 20, o biólogo alemão Theodor Boveri descobriu que, se fertilizasse óvulos de ouriço-do-mar com dois espermatozoides em vez de um, algumas das células acabariam com o número errado de cromossomos e não se desenvolveriam adequadamente. Em uma era anterior à genética moderna, Boveri estava ciente de que as células cancerosas, como as células deformadas do ouriço-do-mar, tinham cromossomos anormais. Seja lá o que causasse o câncer, ele supôs, tinha algo a ver com os cromossomos.

Outro cientista alemão, Otto Warburg, estava estudando ovos de ouriço-do-mar na mesma época que Boveri. Sua pesquisa, na época, também foi prestigiada como um grande avanço em nossa compreensão do câncer. Ao contrário de Boveri, Warburg não estava interessado nos cromossomos dos ovos de ouriço-do-mar. Em vez disso, Warburg tinha como foco a energia, especificamente, como os ovos se alimentavam durante o crescimento.

Warburg havia notado que os ovos de ouriço-do-mar aumentavam significativamente seu consumo de oxigênio à medida que cresciam. Ele esperou, então, encontrar uma demanda extra de oxigênio em tumores de animais, como por exemplo, ratos. Para sua surpresa, em vez disso, ele viu que as células cancerosas alimentavam seu crescimento ao consumir enormes quantidades de glicose, sem usar oxigênio. Já se sabia, na época, que reações movidas a oxigênio são uma forma muito mais eficiente de transformar alimentos em energia, e havia bastante oxigênio disponível para as células cancerosas usarem, então seus resultados não faziam muito sentido. Mas quando Warburg testou tumores adicionais, incluindo os de humanos, ele viu o mesmo efeito todas as vezes. As células cancerosas estavam famintas por glicose e desprezavam o oxigênio.

Estima-se hoje que a descoberta de Warburg, mais tarde chamada de Efeito Warburg, ocorra em até 80% dos cânceres. A tomografia por emissão de pósitrons (PET), que surgiu como uma ferramenta importante no diagnóstico do câncer, é útil exatamente por revelar os locais do corpo onde as células estão consumindo glicose extra. Em muitos casos, quanto mais glicose um tumor consome, pior é o prognóstico.

Nos anos que se seguiram à sua descoberta, Warburg se convenceu de que o efeito ocorre porque as células são incapazes de usar o oxigênio de maneira adequada e que essa respiração danificada é, na verdade, o ponto de partida do câncer.

 

Museu de grandes novidades

Assim como os mais jovens descobriram recentemente a banda Nirvana por conta da música “Something In The Way”, que aparece na trilha sonora do novo filme do Batman (The Batman), o “grande segredo” da descoberta do Dr. Warburg já é música antiga para o ouvido da comunidade científica.

Na década de 1950, esta teoria, de que o câncer é causado por uma respiração celular deficiente – na qual Warburg acreditou até sua morte em 1970, mas nunca comprovou –, foi um importante tema de debate dentro do campo. E então, de repente, o debate acabou. Em 1953, a descoberta de James Watson e Francis Crick, fundamentada nos estudos de difração por raio-X conduzidos por Rosalind Franklin, revelou ao mundo a estrutura da molécula de DNA. Isso preparou o terreno para o triunfo da abordagem do câncer centrada na genética.

Nas décadas seguintes, os cientistas passaram a considerar o câncer uma doença governada por genes que sofriam danos e, consequentemente, mutações que levam as células a um estado de divisão e proliferação implacáveis. Os catalisadores metabólicos que Warburg passou sua carreira analisando começaram a ser chamados de “enzimas de manutenção” – necessárias para manter uma célula funcionando, mas em grande parte irrelevantes para a história mais profunda da origem do câncer.

Os avanços na tecnologia permitiram que a função mitocondrial – a mitocôndria é a parte da célula que “queima” oxigênio para produzir energia – fosse estudada com muito mais detalhes nas últimas décadas, e agora sabemos que células cancerosas têm mitocôndrias ativas e funcionais, ao contrário do que pressupunha a teoria de Warburg. Pesquisas mostraram que diferentes tipos de tumor (e, de fato, subpopulações dentro de um tumor) têm diferentes perfis de demanda por energia.

O Efeito Warburg não é consistente em todos os tumores, e o fenômeno do alto consumo de glicose, sem a necessidade de oxigênio, vem sendo questionado por vários grupos que trabalham com diferentes tipos de câncer, onde as células apresentam função mitocondrial normal. Em um tumor, é provável que exista uma interação dinâmica entre os metabolismos com e sem oxigênio. A flexibilidade metabólica já foi observada em uma variedade de cânceres, incluindo câncer cervical, de mama e pancreático.

Além dessa flexibilidade, há também a influência de várias mutações associadas ao câncer, muitas das quais têm impacto no metabolismo. Compreender como o ambiente das células cancerosas e as mutações afetam o metabolismo celular será de fundamental importância na seleção de quimioterápicos e outros tratamentos.

 

Mas e daí?

O problema é que as lacunas que ainda persistem em nosso conhecimento da doença atraem pensamentos mágicos, pílulas salvadoras e dietas milagrosas sem nenhum rigor científico. Esse tipo de mensagem tem um padrão: “queremos nos rebelar contra o esquema dominado pela grande indústria farmacêutica que só pensa em dinheiro”. Gente mal informada ou mal-intencionada se aproveita desse discurso para oferecer curas aparentemente simples para problemas complexos.

E é exatamente isso que o tal vídeo faz. Com um tom de suspense, comenta-se que os estudos do Dr. Walburg foram escondidos por interesses escusos, mas que até mesmo Hitler deu valor a essas pesquisas e o protegeu, mesmo o médico tendo origem judaica.

O vídeo faz generalizações e trata todos os cânceres como se fossem de uma coisa só: “O Dr. Walburg contribuiu dessa maneira para a ciência! Ele descobriu a origem do câncer… DE TODOS OS TIPOS DE CÂNCER”, afirma, falsamente, o locutor. Além disso, em diversos trechos os roteiristas assassinam a biologia, ao dizer que “não é normal uma célula utilizar glicose para fazer energia, e sim oxigênio”. Como já foi dito, alguns tipos de células cancerosas consomem quantidades enormes de glicose. Células não cancerosas também utilizam glicose, mas de maneira regulada. E, para finalizar, o vídeo diz que, se por acaso o seu médico nunca ouviu falar sobre o método Warburg, é porque a grande mídia quer esconder as pesquisas desse cientista – pesquisas que todo médico que estuda câncer está cansado de ver.

A maior parte dos 40 minutos de vídeo é uma enrolação de marketing para vender, “de graça”, o livro “98 remédios naturais”. E vender de graça não é enganação, porque você precisa fazer uma assinatura (paga) da série “Remédio Natural” para então receber o livro... de graça.

Muitas vezes, quem compra esse tipo de ideia nem é a pessoa que foi diagnosticada com câncer, mas seus familiares, que se sentem impotentes e, com a melhor das intenções, querem fazer algo para ajudar. Essa promessa de “a cura está ao alcance de suas mãos” inspira uma falsa esperança em pessoas que estão extremamente vulneráveis.

Paradoxalmente, os responsáveis pelo vídeo cobram por uma informação que já é conhecida, antiga e ultrapassada, embalada num mito, mas quem só pensa em dinheiro é a malvada indústria farmacêutica.

 

Luiz Gustavo de Almeida é doutor em microbiologia e pesquisador do Laboratório de Genética Bacteriana do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, e atual coordenador nacional do Pint of Science no Brasil

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