Dois erros fazem uma tragédia na pandemia de COVID-19

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6 jun 2020
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Na matemática, ao multiplicar dois números negativos, temos como produto um número positivo, um resultado contraintuitivo para alguns, mas condizente e lógico com as propriedades distributivas e necessidades de simetria da álgebra. Na vida real, no entanto, dois erros não fazem um acerto e, no caso da atual pandemia de COVID-19, podem resultar numa tragédia ainda maior no Brasil, segundo país mais afetado do mundo, e onde a doença continua a fazer vítimas de forma acelerada.

O primeiro erro desta tragédia anunciada não foi exclusivo de nosso país, mas poderia ter sido evitado, ou ao menos mitigado, se tivéssemos uma liderança lúcida e responsável no enfrentamento da crise sanitária. O natural desconhecimento inicial sobre o comportamento do novo coronavírus e a hesitação na implantação de medidas mais duras de contenção do SARS-CoV-2 primeiro permitiram que ele “escapasse” de sua área de origem, a cidade de Wuhan, na província de Hubei, na região central da China, e depois se disseminasse rapidamente mundo afora a partir de janeiro.

Oportunidade desperdiçada

Antes de chegar ao Brasil, no entanto, o SARS-CoV-2 passou pela Europa e EUA. Na Itália, o primeiro caso foi registrado em 31 de janeiro. Mas, ainda sem saber a dimensão da virulência e da disseminação “silenciosa” do novo coronavírus, os governantes no país demoraram em implantar estratégias para conter sua propagação. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, por exemplo, chegou a minimizar a pandemia e a necessidade de uma quarentena, afirmando no fim de fevereiro que a cidade, motor econômico da Itália, “não podia parar”.

A ignorância e negligência, porém, custaram caro. Diante da explosão de doentes, e mortos, duas semanas depois - e quase 40 dias após o registro oficial do primeiro infectado - o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte decretou uma quarentena geral no país a partir de 9 de março, com o fechamento de escolas, fábricas, comércio e serviços não essenciais. Tarde demais. Com o SARS-CoV-2 já espalhado pelo país, a Itália viu seu sistema de saúde entrar em colapso, com hospitais lotados, filas de caixões nos necrotérios e comboios de caminhões militares levando os corpos para os cemitérios.

Cenas parecidas se repetiriam pouco tempo depois na Espanha, e daí em Nova York, acendendo o sinal de alerta no Brasil. Aqui, alguns governantes foram relativamente rápidos em implantar medidas de contenção. No Rio, elas começaram ainda em 17 de março, só 12 dias depois o primeiro caso no estado, e 20 dias após a confirmação do primeiro no país, em 26 de fevereiro, em São Paulo. Já na capital paulista, o decreto restringindo as atividades foi editado um dia depois da entrada em vigor das ações no estado do Rio, em 18 de março.

Esta rapidez deveria ser uma vantagem, mas a falta de uma política conjunta de enfrentamento da pandemia entre as esferas administrativas – municípios, estados e União -, e que teria que ser necessariamente coordenada pelo governo federal, limitou seus ganhos. Soma-se a isso o fato de que o presidente Jair Bolsonaro não só não ajudou como atrapalhou (e ainda atrapalha) a adesão da população ao distanciamento social com suas falas e atitudes, e este distanciamento nunca chegou aos índices de 70% ou mais, apontados como necessários para conter a disseminação do vírus e “achatar a curva” de contaminação.

Assim, o Brasil cometeu o erro de desperdiçar uma oportunidade única de usar os exemplos lá de fora para informar e guiar as estratégias aqui, e pagou o custo econômico do fechamento de empresas e negócios sem colher os benefícios na saúde. O número de doentes e mortos continuou em disparada e hoje (05/06), pouco mais de cem dias depois do primeiro caso confirmado, o país tem mais de 600 mil diagnosticados, o segundo maior número do planeta, e 34 mil óbitos (o terceiro no mundo) nas contas oficiais, sem contar a subnotificação e os atrasos nos registros devido à ainda muito baixa taxa de testagem.

'Massacre' a caminho

E essa sequência de erros ameaça se repetir agora com algumas localidades brasileiras dando início a uma política de relaxamento das medidas de contenção. Novamente espelhando o prévio exemplo de medidas tomadas lá fora – alguns países europeus duramente afetados pela pandemia, como os mencionados Itália e Espanha, já começaram a liberar o funcionamento de bares e restaurantes, por exemplo -, mas desta vez de uma forma precipitada e prejudicial.

Isso porque ao contrário destes países, onde as curvas de novos casos diários claramente já atingiu seu auge e caiu, e o total de doentes por habitante se estabilizou, no Brasil estes números continuam em rápida ascensão (vide gráficos abaixo). Em nota técnica alertando para a precipitação do processo de reabertura da economia que começou a ser implementado pelo governo do estado de São Paulo esta semana, especialistas em epidemiologia e modelagem de dados de diversas instituições brasileiras, reunidos no portal COVID-19 Brasil, destacam que o país é o único no mundo a apresentar uma curva acelerada de crescimento de novas infecções 50 dias após o registro do primeiro caso, que aqui foram completados em 16 de abril.

Gráfico 1

Gráfico 2

 

“O Brasil é o único país que não pisou no freio nesta altura da pandemia”, diz Domingos Alves, líder do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, à Revista Questão de Ciência. “A disseminação do vírus nunca esteve sob controle aqui, e agora vêm falar em relaxamento (das medidas de distanciamento social). Todas as evidências científicas apontam para o contrário do que está sendo feito. A população está indo para o sacrifício. E dizer que isso vai ajudar na recuperação da economia é uma ilusão. Recentemente o FMI (Fundo Monetário Internacional) alertou que quem relaxar as medidas de restrição ainda durante a fase de crescimento da pandemia vai ter um prejuízo ainda maior lá na frente”.

Segundo Alves, as projeções dos especialistas do portal COVID-19 Brasil indicam um aumento de 150% no número de casos da doença em São Paulo nos dez dias após a reabertura, com o agravante de que a quantidade de óbitos também vai disparar.

“O resultado é que a partir de dez dias depois deste relaxamento vamos ver um massacre”, acrescenta. “Os termos são brutos, mas não tem outras palavras para descrever o que vai acontecer. Resta perguntar: quem vai assumir a responsabilidade pela catástrofe que vamos ver daqui a dez dias? Ninguém está sendo responsabilizado pelos erros que levaram às mortes que já estamos vendo agora”.

Nova oportunidade 

O momento, no entanto, também apresenta outra oportunidade única para o Brasil fazer diferente e, apesar do distanciamento social mal executado, se esquivar de uma tragédia maior nesta pandemia e talvez até gerar conhecimento para o enfrentamento de uma nova crise sanitária como esta. Em recente texto para discussão (policy forum) publicado na revista “Science”, Johannes Haushofer e Jessica F. Metcalf, da Universidade de Princeton, EUA, abordaram a possibilidade de usar as decisões de reforço ou afrouxamento das atuais medidas de contenção do SARS-CoV-2 para medir e avaliar a eficácia das restrições de forma conjunta ou individualmente, como ensaios controlados randomizados em níveis populacionais.

A ideia, apontam os pesquisadores, é escolher as intervenções e ajustar os momentos que elas serão afrouxadas de modo diferente para cada localidade ou região, e então monitorar os resultados destas decisões nas curvas de infecção com testagem maciça – outra condição fundamental para que o relaxamento seja implementado e que o Brasil não está observando – para medir seus efeitos. Segundo eles, estudos assim também podem ser feitos em outras fases de uma pandemia, como no início, avaliando o impacto do timing da imposição de medidas restritivas, se precoces ou tardiamente, ou mesmo durante seu pico, alternando períodos de maior rigidez com outros de mais liberalidade o distanciamento social.

Como no começo desta pandemia, o Brasil tem a vantagem de já ter estas observações sendo feitas em outros países em estágios mais adiantado no enfrentamento da COVID-19. O que acontecer em Itália, Espanha, França, EUA e outros lugares à medida que relaxam suas quarentenas e distanciamento social pode servir como pequenas “máquinas do tempo” do que esperar de decisões semelhantes aqui. Mas isso só se os governantes brasileiros ouvirem os alertas de cientistas como Alves e colegas e esperarem os sinais de que a doença está sob controle, com as curvas de novas infecções e mortes claramente em queda ou estabilizadas.

Tivemos a oportunidade de evitar a primeira tragédia da COVID-19 com um distanciamento social forte e precoce e erramos. Agora, com um relaxamento precipitado e infundado destas estratégias, vamos errar de novo, e errar feio, com consequências que, segundo as projeções de Alves e seu grupo, serão nada menos que “desastrosas”.

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

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