O influencer e o disco voador

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10 jun 2026
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Quadrinho inspirado no filme "Earth vs Flying Saucers"

As últimas semanas foram agitadas nos meios ufológicos. Fomos todos pegos de surpresa com um avistamento em Campo Largo, Paraná, registrado pelo influencer Mayk Leão em 31 de maio. O avistamento, que desde o princípio carregava pouca evidência de contato extraterrestre, traz, contudo, lições muito terrenas sobre verdade e crença. Os registros feitos por Mayk foram postados na rede social Instagram e servem como fósseis, permitindo-nos desenhar a anatomia de uma queda.

O Portal Vigília acompanhou o caso de perto. Recomendo a leitura das matérias para entender o panorama geral e os desdobramentos.

Durante o dia, segundo Mayk relatou, suas galinhas e cavalos demonstraram um comportamento anormal. Estavam assustados, como se em alerta, com a atenção direcionada para um ponto específico da propriedade. O próprio Mayk mostrou, em vídeo, que no local que despertava a atenção de seus animais encontrava-se um homem de moto, que saiu logo após ser notado.

Num crescendo de tensão, Mayk passou a relatar barulhos estranhos, parecidos com engrenagens. Ele descreveu os sons “como se fosse alguém engasgado”. Vários internautas, claro, suspeitaram e fizeram uma conexão com o filme Dia D, que estava para estrear no país. No trailer divulgado era possível ver uma jornalista “possuída”, fazendo barulhos similares. Logo teorizaram que Mayk promovia o filme no Brasil.

O canal VHS Break explicou uma parte dos barulhos de uma forma mais simples: bambus rangendo devido à ação do vento.

A parte que mais repercutiu, contudo, foi o avistamento no fim da tarde. Longe da casa de Mayk, na direção oeste, surgiram luzes, organizadas num formato peculiar, que muitos interpretaram logo como “uma nave” ou “um disco voador”. É sempre fantástico ver como as pessoas estão dispostas a tirar conclusões extraordinárias com base em tão pouco. Para o influencer, as luzes estavam perto do rio Açungui, a cerca de 500 metros de sua residência, mas pelas imagens isso é extremamente improvável, como análises posteriores demonstraram. O avistamento durou cerca de 20 minutos. Depois desse tempo, as luzes se apagaram “como se fosse um pisca-pisca de led”, descreveu o influencer.

O ponto mais fantástico do avistamento, contudo, é o que conta com a pior evidência material. Mayk relata que um objeto de grandes proporções (cerca de 60 metros), com uma luz vermelha no centro, havia passado sobre a casa dele. O influencer, então, tenta filmar o objeto com a câmera frontal, o que, para o desespero de todos, resulta em Mayk filmando mais a si mesmo do que a suposta nave. Finalmente, usando a câmera principal de seu celular, Mayk filma “a nave”, que se mostra um pequeno ponto luminoso piscante e, presumivelmente, distante. Algo muito diferente da descrição oral.

Há câmeras na propriedade, que segundo o próprio influencer não estariam apontadas para o céu (o que faz bastante sentido). Ainda assim, seria interessante ver as imagens, já que um objeto imenso com uma luz no centro certamente deixaria uma assinatura no chão, que as câmeras certamente gravariam. Mas jamais veremos, pois o influencer queimou os HDs das câmeras.

O caso Campo Largo passou a ser discutido e debatido. Rapidamente houve polarização. “Claro que ele viu uma nave”, diziam alguns. Outros, como eu, nem sequer estavam convencidos de que era um óvni, já que não havia evidência de imagem para sustentar que a “nave”, vista de longe, pairava sobre a copa das árvores. Confesso que, até agora, não entendo como esse casou se tornou o que se tornou. Eram só luzes ao longe e um contexto prévio duvidoso. Porém, para quem está com sede, qualquer mililitro é um oceano.

Conforme a polêmica se desenrolava e as investigações se iniciavam, o perfil do influencer no Instagram saiu das dezenas de milhares de seguidores para a casa dos milhões. Começou a fazer publicidades, até mesmo com temática ufológica, o que gerou diversos comentários de suposta fraude por benefício financeiro. Mayk nega que o caso seja armação ou manobra de marketing para o novo filme do Spielberg.

Um dos episódios mais curiosos da narrativa foi uma carta, supostamente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), enviada a Mayk. Apesar de óbvia e gritantemente fake, a carta circulou tanto que a própria Abin optou por se pronunciar e desmentir qualquer ligação da agência com o documento.

Quem também se pronunciou foi a Força Aérea Brasileira (FAB). Segundo comunicado:

“A Força Aérea Brasileira, (FAB), por meio do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), informa que, no dia 31 de maio, nenhum objeto foi identificado pelos radares de defesa aérea ou reportado por aeroportos locais com informações de objetos desconhecidos. O controle do espaço aéreo ocorreu dentro da normalidade”.

A isso, claro, a mente conspiracionista responde: “estão querendo acobertar o caso!”. Por outro lado, segundo a hipótese de que o “óvni” nem sequer havia saído do chão, é totalmente compreensível a ausência de detecção.

Embora já houvesse apontamentos e explicações para diversos aspectos da narrativa apresentada por Mayk, a revelação partiu, curiosamente, dele mesmo. Mas sem querer!

Durante uma transmissão ao vivo realizada dias depois do episódio, o influencer mostrou imagens do local. As luzes estavam lá novamente, como se tivessem horário marcado para aparecer... Como de fato tinham!

O trabalho de geolocalização conduzido por investigadores independentes, especialmente Jorge Uesu Jr., mostrou que diversos observadores haviam cometido erros ao estimar a direção e a distância do fenômeno. Quando as coordenadas corretas da propriedade de Mayk foram utilizadas, ficou evidente que a região observada não era uma área erma e inacessível, mas um trecho da escarpa da serra que conta com ocupação humana.

A principal suspeita passou a recair sobre a Chácara Paraíso, sede de um camping localizado na exata direção das luzes. Comparações entre o vídeo original, que viralizou em 31 de maio, e novas imagens obtidas dias depois revelaram uma correspondência praticamente perfeita de relevo, posição, tamanho e distribuição das luzes. O que havia sido interpretado por milhares de pessoas como uma estrutura gigantesca pairando sobre a paisagem mostrou-se compatível com uma fonte luminosa fixa no terreno.

Não é muito surpreendente, já que era isso o que as imagens indicavam. A “nave” sobrevoando a casa do influenciador era apenas uma interpretação que os vídeos não sustentavam.

A pá de cal veio quando outros investigadores foram ao local. O youtuber Wanderlei Zandona, conhecido na comunidade ufológica, publicou imagens obtidas próximo à propriedade de Mayk, mostrando as luzes novamente acesas no mesmo ponto da paisagem. Sua intenção inicial era utilizar um drone para investigar a origem do fenômeno, mas o simples fato de as luzes continuarem aparecendo exatamente onde deveriam aparecer já enfraquecia severamente a hipótese extraordinária.

Pouco depois, representantes da própria Chácara Paraíso publicaram imagens de suas instalações. O que se via eram postes com iluminação branca intensa e fileiras de luzes alaranjadas distribuídas ao longo da propriedade. Observadas a quilômetros de distância, através da atmosfera e parcialmente encobertas pela vegetação, essas luzes poderiam facilmente produzir os efeitos de cintilação e distorção registrados nos vídeos de Mayk.

Mas e a nave que sobrevoou a casa do influencer? Como explicar? Bem, mais uma vez, as imagens não mostram uma nave imensa passando sobre a casa, mas apenas uma luz piscando distante. E o que era essa luz? Conforme esclarecido por Jorge Uesu Jr. e outros investigadores, era um avião fazendo a rota de Montevidéu para São Paulo.

E assim terminou um dos maiores casos ufológicos brasileiros de 2026 até agora. Não com uma nave sendo rastreada por radares; afinal, ela nunca saiu do chão. Não com destroços recuperados por militares. Não com documentos secretos vazados na internet. Terminou com uma chácara.

Há uma ironia quase poética nisso tudo. Durante dias, multidões discutiram extraterrestres, conspirações governamentais e tecnologias impossíveis. A resposta, ao que tudo indica, estava parada no mesmo lugar o tempo todo, presa ao chão e incapaz de realizar voos rasantes.

O Caso Campo Largo é um lembrete valioso de que testemunhos podem ser sinceros e ainda assim equivocados. Que percepções humanas são falíveis. E que, antes de perguntar se uma luz veio de outro planeta, talvez seja prudente verificar se ela não veio do camping logo ali na frente. Ou de qualquer outra fonte prosaica. É chato? É. Mas fazer o quê?

Porém, talvez a lição mais importante seja outra. O episódio revelou o quanto algumas pessoas desejam acreditar. Bastaram luzes distantes, uma narrativa emocionalmente carregada e um punhado de vídeos ambíguos para que a hipótese extraterrestre fosse abraçada por milhares. A investigação veio depois. A crença veio primeiro. Uma inversão perversa, mas muito comum!

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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