A título de despedida

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lançamento de nave espacial

Caros leitores, peço licença para escrever este artigo em primeira pessoa, pois se trata de uma despedida. Não pretendo aqui fazer um inventário de todos os assuntos que abordei nestes anos, mas refletir sobre os caminhos que escolhi ao escrever para esta revista, que agora encerra suas atividades.

Em novembro de 2018, logo após a inauguração do Instituto Questão de Ciência, publiquei o artigo “A mentira das terapias quânticas”. Como físico, a indignação diante do uso enganoso de conceitos científicos precisos para vender tratamentos, objetos e falsas promessas tornou natural a escolha do primeiro tema. Mas, se na época eu considerava que o problema estava principalmente do lado de fora da ciência – entre charlatões, vendedores de ilusões e pessoas dispostas a acreditar –, os anos seguintes mostraram que a divisão entre os grupos que defendem a ciência e aqueles que toleram, promovem ou acreditam em picaretagens não é tão nítida.

Afirmações negacionistas fantasiadas de ciência, que contrariam tudo o que se sabe de biologia, física e química – como a memória da água na homeopatia ou os meridianos de energia na acupuntura – são frequentemente ignoradas pelas comunidades científicas e pelas associações médicas, e ensinadas em universidades. Em nome da tradição e da pluralidade, instituições públicas ignoram as evidências científicas e financiam pseudociências com dinheiro público. O problema, portanto, não está apenas nos charlatões, mas também na omissão ou na conivência daqueles que deveriam estar ao lado da ciência. Nesses casos, a indignação torna-se seletiva, dependente da inclinação política e do negacionismo de estimação. 

Uma vez que as diversas instâncias responsáveis por atuar como porta-vozes da ciência perante a sociedade se deixam contaminar pelos mais variados vieses, e a defesa da ciência passa a ser apenas retórica e pouco objetiva, as ações dessas instâncias não têm mais a ciência como foco. Nesse contexto, surgem políticas públicas mal planejadas e nem sequer avaliadas como deveriam. A disponibilização pública de dados, a análise crítica, o confronto de ideias e a correção de erros são frequentemente ignorados. Cientistas tornam-se militantes e abandonam os critérios que aplicam em suas pesquisas para adotar discursos ideológicos, aplaudidos em câmaras de eco.

Falar da conexão entre ciência e sociedade passa necessariamente por analisar o papel da imprensa. Por isso, tratei em vários artigos de como o jornalismo lida com a divulgação científica no debate público. A imprensa, neste caso, além de ajudar na disseminação do conteúdo científico, poderia ser uma grande aliada da sociedade, auxiliando a fiscalizar o uso do erário. Porém, não é isso que acontece. Muitas vezes, o profissional que não está habituado ao jornalismo de ciência reproduz, lado a lado, declarações de bons e maus pesquisadores, sem examinar criticamente a qualidade das evidências apresentadas. A matéria jornalística torna-se, então, mera central de distribuição de discursos, criando uma falsa equivalência ao ouvir “todos os lados”. 

Não é sempre, porém, que essa comunicação científica equivocada parte da imprensa. Muitas vezes, os próprios cientistas são os culpados. Universidades produzem e distribuem notícias de suas pesquisas por meio de assessorias mais interessadas no hype do que na qualidade da comunicação, em um modelo que chamei, em artigo escrito com Carlos Orsi, de “imprensa bartender”. 

Nesse modelo, o assessor não está empenhado em oferecer ao público uma informação de qualidade e cientificamente precisa, mas em servir ao pesquisador e à instituição, atuando como agente de relações públicas. Resultados modestos ou preliminares são transformados em descobertas revolucionárias, em busca de cliques, repercussão e prestígio imediatos.

Essa comunicação problemática pode tanto surgir da contratação de empresas de assessoria terceirizadas como da criação de uma estrutura de comunicação universitária subserviente, que se deixa capturar por demandas de promoção pessoal, publicando indiscriminadamente tudo o que recebe. A Academia, nesta situação, desperdiça uma oportunidade hoje rara: os veículos de comunicação universitários não dependem de assinantes nem de anunciantes para existir. Poderiam, portanto, praticar uma comunicação científica e institucional guiada pelos parâmetros do bom jornalismo – livre das pressões que se impõem cada vez mais ao jornalismo da grande mídia e que levam a priorizar o entretenimento sobre a informação.

A perda de foco na qualidade da informação não representa um caso isolado, mas de sintoma de um processo maior de substituição gradual da excelência acadêmica e do rigor por populismos associados a pautas da moda. A análise dos rumos das universidades foi o foco dos meus artigos mais recentes, que se concentraram em discutir os riscos de as instituições de pesquisa e educação superior afastarem-se de sua missão essencial e transformarem-se em organizações empenhadas em atender a um número cada vez maior de demandas, muitas delas alheias ao ensino e à produção de conhecimento.

Um exemplo desse distanciamento é a criação de setores voltados à promoção de políticas identitárias. As universidades incorporaram às suas atividades a promoção direta de uma perspectiva particular de justiça social, e se apresentam cada vez mais como agentes político-morais no lugar de instituições de ensino, pesquisa e extensão. Com essa transição, a sociedade deixa de julgá-las pelos resultados científicos que produzem e pela qualidade da formação que oferecem. Para uma parcela considerável do público, a avaliação da qualidade da universidade passa a depender da concordância ou da rejeição às ideologias e aos valores identitários que promovem.

Nestes quase oito anos de revista, escrevi sobre assuntos que foram da avaliação da qualidade dos vinhos à mecânica quântica. Refutei mitos, tratei de comunicação científica e discuti políticas de ciência e de educação. O sentimento que fica, porém, é que, por mais irracional e absurda que seja uma ideia, sempre haverá um grupo disposto a adotá-la como seu negacionismo de estimação. 

A modernidade produziu notáveis avanços científicos e tecnológicos, mas nossa capacidade de aprender com os próprios erros parece não ter avançado no mesmo ritmo. Como sintetiza o filósofo John Gray: “Se existe algo único no animal humano é sua capacidade de multiplicar conhecimento em velocidade crescente, ao mesmo tempo revelando-se cronicamente incapaz de aprender com a experiência”. 

Nos vemos por aí.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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