Morbius e os vampiros pseudocientíficos

Apocalipse Now
7 mai 2022
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Morbius

 

“Morbius”, filme dirigido por Daniel Espinosa e estrelado por Jared Leto que aparentemente quase ninguém (além de mim) viu, tem como protagonista um personagem criado em 1971 como vilão trágico para histórias do Homem-Aranha. O “vampiro vivo”, como é chamado, aparece no roteiro de Roy Thomas (desenhos do grande Gil Kane!) não apenas como antagonista, mas também como peça fundamental na resolução do drama pessoal que atingia nosso herói: ao realizar um experimento para tentar eliminar seus poderes de aranha e voltar a ter uma vida normal, Peter Parker, inadvertidamente, desenvolve dois pares extras de braços!

Assim como os quatro novos braços de Parker – que, ao deixá-lo com oito membros no total, tornavam-no ainda mais parecido com um aracnídeo – o vampirismo de Morbius era resultado de um acidente científico (no universo Marvel, “acidentes científicos” são capazes de causar qualquer coisa). Nesse aspecto, o filme de Espinosa segue o original de perto: nos quadrinhos e na tela, Michael Morbius é um pesquisador que busca usar morcegos vampiros para curar uma enfermidade sanguínea.

Do mesmo modo que a origem do Homem-Aranha (picado por uma aranha radioativa), a de Morbius (transformado em vampiro por um experimento envolvendo hematófagos) é um exemplar, levemente disfarçado em ficção científica, da aplicação dos princípios ancestrais da magia simpática.

Base de diversas superstições e também de práticas folclóricas ou religiosas encontradas por todo o mundo, a magia simpática envolve duas intuições humanas muito fortes, mas, infelizmente, falaciosas: a que confunde relações de semelhança com relações de causa e efeito (picada de aranha, poderes de aranha; sangue de morcego vampiro, vampirismo; planta com forma de rim, remédio para problemas renais, etc.) e a chamada “lei do contágio” – seres que entram em contato de algum modo preservam algum tipo de influência mútua (a aranha segue influenciando Parker, o morcego, Morbius).

A forma como os roteiristas originais da Marvel, como Stan Lee e Roy Thomas, exploravam as intuições da magia simpática para dar um verniz de “verossimilhança” aos acidentes científicos que produziam seus heróis e vilões merece atenção: um Homem-Aranha que ganha seus poderes de uma picada de aranha radioativa soa “mais plausível” do que um Homem-Aranha que ganha seus poderes de um meteorito radioativo, mas a rigor as duas explicações são igualmente insustentáveis.

Isto não é uma crítica: quem considera plausibilidade e verossimilhança científica essenciais para curtir uma história deveria se concentrar em livros de gente como o brilhante Greg Egan e evitar quadrinhos (e filmes) de super-herói. Mas é interessante notar como a ciência de faz-de-conta dos gibis funciona seguindo as mesmas regras subjacentes da magia, apenas com troca de vocabulário e aparato – saem poções e amuletos, entram fórmulas e equipamentos.

 

Vampiro transgênico

O Morbius dos quadrinhos é vampirizado por uma combinação mal explicada de “extrato de sangue” de morcego hematófago com “impulsos elétricos”. O do filme faz algo melhor, tenta inserir genes de morcego em seu DNA. É um vampiro transgênico.

Ao contrário do que acontece com os transgênicos do mundo real, no entanto, Michael Morbius conduz seus experimentos sem nenhum tipo de supervisão ética ou preocupação com biossegurança, e acaba recebendo, além das características do gene desejado (alguma coisa a ver com coagulação), outras – incluindo sonar, sede de sangue, força sobre-humana e o poder de voar. Disso tudo, força sobre-humana é algo que nem a magia simpática explica, mas se o filme fosse bom, ninguém iria reclamar.

Morbius não é, claro, o primeiro vampiro “científico”. A honra provavelmente cabe às hordas de mortos-vivos que assombram o romance “I Am Legend”, de Richard Matheson, publicado originalmente em 1954. Adaptado várias vezes para o cinema – o filme original de epidemias de zumbis, “Night of the Living Dead”, de 1968, é uma espécie de “versão pirata” –, “Legend” trata de uma pandemia misteriosa que converte a maior parte da população da Terra em vampiros.

No mundo de Matheson, o vampirismo é causado por uma bactéria. Isso faz um certo sentido poético, já que o folclore tradicional do vampiro europeu provavelmente se desenvolveu em respota a epidemias de tuberculose.

Os vampiros científicos de “Legend” se comportam como os vampiros mágicos ficcionais por uma mistura de condicionamento psicológico (a pessoa, ao “ressuscitar” como vampiro, reconhece sua situação e o choque faz com que se conforme ao estereótipo) e características da bactéria, que é vulnerável à luz do Sol e ao alho. O romance original ainda é estupidamente superior a todas as adaptações cinematográficas.

Mas os vampiros “científicos” mais bem realizados, em minha talvez não tão humilde opinião, são os usados por Alan Moore em sua histórica passagem pelo Monstro do Pântano da DC Comics. Na edição de julho de 1985 da revista, vemos John Constantine (então um mero coadjuvante, décadas antes de ter sua própria série de TV – que na verdade não durou muito) dizer ao Monstro que “o vírus que causa o vampirismo é anaeróbico”, e por isso vampiros conseguiram colonizar o fundo de um lago. A opção por vírus (nos anos 1980) em oposição a bactérias (na década de 1950) talvez tenha algo a ver com a evolução dos antibióticos: que tal azitromicina, em vez de água benta?

 

A arte da pseudociência

O que a maioria dessas tentativas de reescrever o vampiro como um personagem de ficção científica deixa de fora é a viabilidade biológica de um primata, do tamanho de um ser humano adulto, ser capaz de viver exclusivamente de sangue. Segundo a química Kathryn Harkup, autora de “Vampirology”, a perspectiva não é boa.

Sangue é um alimento pobre em calorias: um vampiro com necessidades energéticas comparáveis à de um Homo sapiens comum precisaria realmente drenar uma vítima até a morte por dia, todo dia (ou noite). Carboidratos e gorduras também são tragicamente insuficientes. Já proteínas, ferro e sais estão presentes em níveis que excedem, em muito, as necessidades mínimas diárias da dieta humana. A overdose contínua, principalmente de sal e ferro – noite após noite – vai trazer problemas. Também não há vitamina C suficiente no sangue humano, o que torna o vampiro vulnerável ao escorbuto.

O que a ficção científica faz, nesse caso e em tantos outros, é enfatizar alguns pontos de aparente plausibilidade (a semelhança entre vampirismo e certas doenças de potencial epidêmico, por exemplo, ou o fato de que o alho tem mesmo algumas propriedades desinfetantes) e deixar as questões problemáticas, que não ajudam a narrativa a fluir, de fora: uma coisa é um problema científico que faz parte do enredo, outra bem diferente é um que inviabiliza a história.

Pseudociências funcionam de modo muito parecido, forçando analogias de plausibilidade epidérmica (muitas vezes apelando para as intuições enganosas do pensamento mágico) e guiando o discurso para evitar que a vítima pense nas questões inconvenientes que poderiam quebrar o encanto.

Assim como a diferença entre um grande ator de um ótimo impostor, o que separa muita ficção científica divertida de pseudociência criminosa são basicamente questões de apresentação, contexto – e ética, claro. Apreciar a técnica dos artistas pode servir de proteção contra os truques dos canalhas.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP) e coautor de "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), ganhador do Prêmio Jabuti, e "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares)

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