O cínico, os oráculos e as lições da história

Apocalipse Now
4 mar 2023
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Estátua de Apolo

 

Uma coisa que é muito fácil perder de vista, na correria dos tempos modernos e no atoleiro dos problemas que parecem tão específicos dele, é o quanto desses “problemas específicos” são, na verdade, recorrentes na profundidade do tempo histórico. Se é importante evitar anacronismos – ver astronautas em pinturas rupestres, enxergar nossos antepassados como gente do século 21 de peruca e que diz “vós” em vez de você –, também é vital não perder de vista o que há de comum na diversidade da experiência humana.

A exploração comercial do desamparo e do desespero, por exemplo, pode parecer algo muito particular da contemporaneidade, deste nosso mundo de pastores plutocratas e gurus influenciadores; mas, facilidades tecnológicas à parte, possivelmente não difere muito em essência da paisagem de templos de cura (procurados pelos doentes desenganados pela medicina) e oráculos (visitados por quem buscava conselhos para a vida e orientação para os negócios) da Antiguidade, principalmente no período helenístico e, depois, nos tempos do Império Romano.

Relatos da época e escavações arqueológicas conduzidas a partir do século 19 mostram que os mais populares oráculos de Apolo e os templos de Esculápio (deus da medicina) eram verdadeiros complexos turísticos e de lazer, com hospedarias, teatros, praças de esportes, centros de comércio. Economias inteiras dependiam da fama e do sucesso desses centros, não muito diferente do que acontecia na cidade goiana de Abadiânia. “Delfos sobrevivia porque toda a cidade havia adotado um bem-sucedido plano de negócios que promovia seu principal empreendimento comercial”, resume o psiquiatra Loren Pankratz em seu livro de 2021 “Mysteries and Secrets Revealed”.

A movimentação em torno do templo de Esculápio em Epidauro, o maior e mais famoso, não deixava nada a dever ao turismo de cura pela fé que cerca o santuário de Lourdes, na França. A principal diferença é que as águas curativas de Esculápio fluíam em outro lugar, no templo de Pérgamo. O sofista Aristides (117-181), um devoto do deus, escreve o seguinte sobre as águas do poço de Pérgamo:

 

“Banhados nelas, muitos recuperam a vista, e muitos curam-se de doenças do peito e recuperam o fôlego necessário ao beberem delas (...) Um homem, ao beber delas, recuperou imediatamente a voz, depois de ter sido mudo”. (Aristides, Oração 39).

 

Em Epidauro, onde não havia águas curativas, sacerdotes decoravam o espaço com placas onde se liam, gravados em pedra, relatos “verídicos” de cura, obtidos por suplicantes que haviam visitado o tempo e recebido, em sonho, uma consulta médica com o deus. Um deles conta como Esculápio fez com que uma mulher que estava grávida havia cinco anos finalmente desse à luz um menino que, depois de tanto tempo no útero, já saiu andando sozinho e foi tomar banho por conta própria.

 

Sátira e cinismo

Se os antigos tinham oráculos e templos desempenhando papel análogo ao das convenções de coaching e dos santuários de cura da atualidade, tinham também poetas, filósofos e satiristas dispostos a desinflar as augustas pretensões dessas colônias de férias para desesperados. Os textos de Luciano de Samósata (125-180 AEC) escarnecendo dos profetas Alexandre de Abonoiteco (que comento em meu “Livro dos Milagres”) e Peregrino talvez sejam os mais famosos, mas estão longe de serem os únicos.

Conta-se que já no século 5 AEC o poeta Diágoras de Melos, confrontado com uma mostra suntuosa de imagens votivas deixadas em agradecimento aos deuses por pessoas que haviam sobrevivido a desastres marítimos – “veja quantas pessoas escaparam da fúria das tempestades orando para os deuses”, um amigo disse, para provocá-lo –, respondeu: “de fato, mas onde estão as imagens dos que sofreram naufrágio e morreram nas ondas?”. A anedota é relatada pelo filósofo e senador romano Cícero (106-43 AEC), que se refere a Diágoras como “o Ateu” (talvez o primeiro assim chamado no Ocidente).

Estátua de Apolo

 

Antes de virar sinônimo de hipócrita, sarcástico e inescrupuloso, “cínico” era o nome dado aos membros de uma escola filosófica reconhecida por manter convenções sociais, políticas e religiosas sob olhar crítico. Alguns rejeitavam-nas completamente, vivendo como eremitas; outros apenas mantinham uma atitude mental ácida e irreverente.

 

O teólogo e o imperador

Ao segundo grupo pertencia Enomau de Gadara, contemporâneo do imperador Adriano (76-138). Pouco se sabe a respeito de Enomau. É possível que ele seja o mesmo Abnimos (ou Avnimos) mencionado em escritos rabínicos como filósofo gentio amigo dos judeus. Trechos de um de seus trabalhos mais famosos, “Denúncia dos Charlatões”, são citados ao longo de vários capítulos de uma obra do bispo católico Eusébio de Cesareia (265-339), “Preparação do Evangelho”.

Tanto a “Denúncia” quanto o caráter pessoal de Enomau são duramente atacados em escritos do imperador Juliano (331-363), que acusava o filósofo de ter como objetivo “acabar com toda a reverência aos deuses, desonrar toda a sabedoria humana, pisar em todas as leis que podem ser identificadas com honra e justiça e, mais ainda, pisar nas leis que são como se tivessem sido gravadas em nossas almas pelos deuses, que nos impelem a crer na existência do divino”.

Se pararmos para pensar que Enomau estava sendo citado por um importante teólogo cristão mais ou menos um século depois da época em que viveu, e vilipendiado por um imperador romano quase 200 anos mais tarde – um milênio antes da chegada da imprensa à Europa e 1500 anos antes da internet – podemos ficar com a impressão de que se tratava de um argumentador hábil e de um pensador influente, cuja obra se perdeu, provavelmente, por conter ideias demasiado impopulares. O que temos de “Denúncia dos Charlatões”, preservado por Eusébio, só vem reforçar essa impressão.

 

Generalidades e obviedades

Em determinado ponto da vida Enomau dirigiu-se ao oráculo de Apolo em Claros com uma dúvida sobre negócios. A resposta do deus veio sob a forma de uma série de versos, que se traduz mais ou menos assim:

 

“Na terra de Tráquis jaz o jardim de Hércules, onde as flores se mantêm eternas, cobertas de orvalho perpétuo. Mesmo colhidas todos os dias, nunca diminuem em número”.

 

Tráquis sendo o nome do local onde o herói mitológico Hércules morreu, depois de uma vida repleta de esforços e aventuras, Enomau imaginou, a princípio, que se tratava de uma profecia de sucesso – depois de muito trabalho, ele teria riqueza da qual desfrutar pelo resto de seus dias. No entanto, logo descobriu que os mesmos versos haviam sido dados como resposta para diversos outros consulentes do oráculo, em diversas circunstâncias (“ladrão, soldado, amante, orador”), em resposta a diferentes perguntas.

E concluiu que não só o oráculo estava dispensando respostas pré-fabricadas, independentemente das particularidades do consulente ou das circunstâncias de cada caso, como os versos apenas adornavam uma constatação óbvia e genérica, que Enomau explicita em sua “Denúncia”: “Não importa o que um homem deseja, a dificuldade vinha primeiro, e o desfrute era só expectativa”.

Segundo reconstituição biográfica sugerida pelo historiador Herbert William (H.W.) Parke (1903-1986), foi a desilusão com o Apolo de Claros que lançou o filósofo na composição da “Denúncia dos Charlatões”, uma análise ácida e penetrante de pronunciamentos de oráculos, principalmente do mais famoso de todos, o de Apolo em Delfos. 

Os longos trechos citado por Eusébio – há capítulos inteiros da “Preparação do Evangelho” que são transcrições de Enomau – basicamente reduzem as exortações oraculares a quatro categorias: as vagas ou ambíguas, que permitem jogar a culpa por um eventual fracasso nas costas do consulente, que não teria “entendido direito” o que o oráculo queria dizer; as egoístas, que dizem que o segredo do sucesso é trazer mais e mais honrarias e riquezas aos sacerdotes que cuidam do oráculo; as manipuladoras, que buscam interferir em eventos políticos, por exemplo com vaticínios que excitam a rivalidade entre cidades já à beira da guerra; e as óbvias, que embalam generalidades como “sabedoria”.

Enomau escarnece da resposta dada por Delfos a Licurgo, o famoso legislador espartano, sobre que tipo de constituição a cidade deveria adotar. O oráculo recomendou que fossem adotadas leis que promovessem força, coragem e concórdia. O filósofo pondera: é para isso que precisamos da sabedoria dos deuses? Até os fracos e covardes sabem que força e coragem são importantes. Ele cobra do oráculo: “Diga-nos como essas coisas são criadas no Estado, e não nos mande, ignorantes que somos, levar os povos por este caminho”.

 

No presente

Eusébio usa o texto de Enomau como aríete para atacar a religião greco-romana, mas critica o filósofo por atribuir o suposto poder dos oráculos a simples charlatanismo e não a demônios (a explicação preferida da teologia cristã na época).

É curioso, portanto, que os mesmos fenômenos expostos na dissecação do charlatanismo oracular – ambiguidade, egoísmo, manipulação, obviedade – sejam hoje tão presentes em púlpitos, ostensivamente, cristãos. Os sacerdotes do deus de Delfos, assim como os pastores de muitas igrejas atuais, pediam ouro para abrir o caminho do sucesso, e sempre tinham uma desculpa para eximirem-se das responsabilidades, em caso de fracasso.

O que talvez haja de original na modernidade é que a técnica laicizou-se. Sem jamais deixar os altares, comunicou-se aos palcos, às salas de reunião, às salas de aula, aos auditórios. Os oráculos leigos de Apolo têm coaches, influencers e consultores no lugar de pitonisas e sacerdotes.

Estátua de Apolo

E quanto aos templos de cura? Esculápio era o deus da medicina. Médicos eram chamados de seus filhos. O procedimento nos templos incluía uma noite de sono, durante a qual o paciente sonhava passar por uma consulta médica ou por uma cirurgia realizada pelo deus.

Esculápio não curava por gestos de poder e palavras mágicas, mas por tratamentos, dietas, conselhos e receitas – ainda que transmitidos no plano onírico. Não havia uma fronteira epistêmica rígida separando o que seria um tratamento recomendado por um médico de um recomendado pelo deus, exceto pelo fato de que Esculápio era considerado muito mais hábil, inteligente e competente do que todos os médicos mortais. Doentes procuravam Esculápio depois que a medicina dos mortais falhava. Cláudio Galeno (129-216), talvez o mais “científico” dos médicos do período romano, registra com toda a sobriedade uma cura de Esculápio, operada sobre um certo Nicômaco de Esmirna, em um de seus tratados.

Nesse aspecto, talvez seja possível dizer que a medicina de templo da Antiguidade era “integrada” e “complementar” à medicina dos mortais, uma situação que, dados os devidos descontos de linguagem e figurino, muitos gostariam de recriar no mundo contemporâneo, com base em argumentos que (de novo, feitas algumas atualizações cosméticas) não são muito melhores do que a história do cego que voltou a enxergar graças à água de Pérgamo, ou da gravidez de cinco anos.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, e "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares)

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