O incrível sobrenatural que encolheu

Apocalipse Now
19 mar 2023
Autor
Imagem
Aquiles e Heitor

 

Quando o mago-filósofo-profeta Apolônio de Tiana, no primeiro século da Era Comum, invocou o espírito do semideus Aquiles, caído em batalha dois mil anos antes, no cerco de Troia, o chão tremeu. Em seguida, Apolônio viu surgir diante de si uma figura heroica de cinco côvados (ou mais de dois metros) de altura, que logo se expandiu até atingir doze côvados, ou cerca de seis metros. O monumental Aquiles, então, pediu a Apolônio que lembrasse os gregos da necessidade de oferecer-lhe sacrifícios fúnebres. Os dois conversaram até o Sol raiar, quando fantasma épico desapareceu num corisco.

Vinte séculos depois, o máximo que se consegue de fantasmas são blips em detectores de campo magnético, golpes de vento gelado e sussurros indistintos captados por gravadores deixados ligados em salas vazias ou por aparelhos de rádio propositalmente mal sintonizados. O que não parece ser muito. Mas, ao que tudo indica, basta para dar audiência a programas TV a cabo e canais do YouTube.

No livro “Debunked!”, o físico ganhador do Nobel Georges Charpak (1924-2010) e o físico e professor de metodologia científica Henri Broch apresentam um gráfico que cruza a massa dos objetos alegadamente movidos por telecinese (ou seja, pelo poder do espírito ou do pensamento) com o passar do tempo. A distribuição é interessante.

Mil anos atrás, a força de vontade de místicos, espíritos ou paranormais teria sido suficiente para deslocar os moais da Ilha da Páscoa, cada um com massa da ordem de uma dezena de toneladas.

No século 19, tal poder fazia levitar peças de mobília e seres humanos adultos; em meados do século 20, alterava o resultado de arremessos de dados e fazia voar tijolos, copos, cinzeiros e outros itens domésticos durante episódios de poltergeist. No século 21, com sorte, derruba a temperatura de salas vazias em alguns graus ou, muito de vez em quando, afeta a distribuição aleatória de partículas subatômicas.

Como Charpak e Broch escreveram, “o corpo de fenômenos sobrenaturais observados encolhe como uma blusa de lã numa secadora de roupas”.

 

Queda

Os autores notam que a perda de potência correlaciona-se quase perfeitamente ao aumento da qualidade, quantidade e precisão dos meios objetivos de detecção. É uma análise que parece aplicar-se a toda gama dos fenômenos tradicionalmente classificados como “paranormais”. Por exemplo, comentar sobre a dificuldade, aparentemente insuperável, de obter imagens claras de naves alienígenas e de seus tripulantes, mesmo nesta era de câmeras digitais nos telefones celulares e telescópios espaciais capazes de detectar galáxias a bilhões de anos-luz, já virou clichê.

A mais antiga “história real” de casa assombrada registrada no Ocidente envolve o filósofo grego Atenodoro (74 AEC-7 EC), que havia alugado uma casa em Atenas por um preço baixíssimo – exatamente porque ninguém aceitava morar lá, por medo de um fantasma que percorria a habitação à noite, arrastando correntes.

Segundo relata Plínio, o Moço (61-114), Atenodoro estava escrevendo à noite quando a assombração lhe apareceu, perfeitamente visível, produzindo um som alto e claro de correntes batendo e arrastando-se no chão (“um espectro... um ancião esquálido e emaciado, de barba longa e cabelos arrepiados, chacoalhando grilhões nas pernas e algemas nas mãos... sinalizando com o dedo, convidando-o a seguir”). Ele a encarou com tranquilidade e seguiu-a até o jardim, onde a alma penada sumiu. No dia seguinte, fez o jardim ser escavado e encontrou ossos e correntes enterrados. Quando o esqueleto recebeu um funeral adequado, a casa deixou de ser assombrada.

Vamos rever as condições em que a aparição se deu: o filósofo encontrava-se sozinho; o ambiente estava iluminado (era noite, mas havia luz de velas suficiente para que Atenodoro lesse e escrevesse confortavelmente); o fantasma foi visto, ouvido e comunicou-se, ainda que por meio de gestos, com a maior clareza.

Saltando para o século 19, manifestações físicas – visíveis, audíveis, palpáveis como o fantasma ateniense –, quando na presença de mais de uma testemunha, só ocorriam na mais completa escuridão. E agora, no século 21, com câmeras infravermelhas, detectores de movimento e gravadores digitais, só é possível obter sinais ambíguos, oscilações aleatórias e vagas impressões subjetivas (“peso emocional”, “energia ruim” etc.).

Em termos de comunicação com espíritos, a perda de eficiência entre o fantasma de Atenas e os que habitam as casas assombradas atuais é marcante. Se nos lembrarmos da facilidade com que Apolônio dialogou com o fantasma de Aquiles, então, nem se fala – literalmente.

 

Ascensão

Uma explicação tradicionalmente proposta para o declínio dos efeitos paranormais na exata medida em que aumentam as chances de detectá-los e comprová-los (caso sejam reais) é a de que o mundo atual, cético, materialista e sem fé, faz com que as manifestações sejam menos prováveis e notáveis. Em outras palavras, tornamo-nos indignos. Não se trata de uma hipótese nova: já aparecia, por exemplo, numa discussão de Plutarco (c. 50-125) sobre o desaparecimento dos oráculos do mundo antigo.

Mas a ideia soçobra não por ser velha, e sim porque a premissa é falsa. A crença no inacreditável não está em declínio, mas em ascensão. De acordo com a pesquisa Paranormal America de 2018, a proporção de americanos que acredita que “locais podem ser assombrados por espíritos” cresceu de forma marcante na última década, passando de 46% em 2016 para 52% em 2017 e 55% em 2018.

A tendência já havia detectada, no início do século, por uma pesquisa Gallup que registrou um aumento de 13 pontos porcentuais (de 29% para 42%) na proporção de americanos que acreditam que “uma casa pode ser assombrada”, entre 1990 e 2001. Enquete YouGov, conduzida às vésperas do Halloween de 2021, apontou uma prevalência de 41% na crença em fantasmas e 43% de crença em demônios.

Escrevendo provavelmente em 2000 ou 2001 (a edição original francesa de “Debunked!” é de 2002), Charpak e Broch atribuíam o descompasso entre evidência e crença à influencia da mídia e ao que viam como uma transformação no modo de principal de assimilar informação, “uma explosão de imagens visuais com impacto emocional e um declínio da escrita e da análise racional”, o que viam, também, como ameaça à democracia – e isso décadas antes do TikTok.

 

Enfim...

A explicação mais parcimoniosa para a acentuada perda de potência do paranormal nos últimos dois séculos é, claro, o aumento da capacidade de identificar ilusões e de detectar fraudes.

Quando uma só pessoa vê o fantasma, ele se manifesta à vontade e em plena luz. Pode até mudar de forma – Luciano de Samósata (120-200) conta a história de um espírito que tentou assustar um filósofo pitagórico transformando-se em cão, touro e leão.

Quando há um comitê a aguardá-lo, no entanto, faz-se necessária a mais absoluta escuridão.

Quando se trata de inferir como rochas gigantescas foram deslocadas há centenas ou milhares de anos, especula-se sobre poderes da mente. Quando se tenta documentar esses poderes no presente, de forma controlada, só o que resta, quando resta, são anomalias estatísticas em sistemas microscópicos.

Quando só há uma ou duas pessoas por perto, o disco voador pousa, os alienígenas fazem contato e mandam recados. Quando há uma multidão observando, no máximo piscam luzes à distância no céu. Quando o fotógrafo e o repórter estão sozinhos e só têm uma máquina com filme preto e branco, a imagem é um disco prateado perfeito; quando há instrumentos digitais e inúmeros observadores, não passa de um borrão na tela. E assim por diante.

São ocorrências que merecem o nome de fenômenos marginais – não porque estejam à margem da ciência ou da sociedade, mas porque só se manifestam na margem de erro de nossos sistemas de detecção e de nossa capacidade de interpretação. À medida que a margem encolhe, os efeitos diminuem.

Mas a margem jamais será zero, e a persistência – com eventual ampliação, dependendo do contexto histórico e psicológico – da crença em fenômenos marginais provavelmente sempre estará conosco, assim como os espertalhões interessados em ganhar dinheiro explorando quem se apega a elas.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, e "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares)

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

11 95142-8998 

11 95142-7899