Sherlock Holmes e o caso do testículo de macaco

Apocalipse Now
8 jul 2023
Autor
macacos

 

Há um século, em 1923, Sir Arthur Conan Doyle publicava o que hoje é visto como um dos mais estranhos contos de Sherlock Holmes: “The Creeping Man”, traduzido no Brasil como “O Homem que Andava de Rastros” ou “O Homem que Andava de Quatro”. O enredo (e desculpem-me os mais sensíveis, mas spoiler tem prazo de validade) gira em torno de um cientista de idade avançada que, apaixonado por uma moça muito mais jovem, apela para um soro glandular de macaco na tentativa de resgatar o fervor juvenil. “Fervor” aí sendo o que você está imaginando mesmo.

É uma aventura atípica no cânone sherlockiano. Lida hoje, parece mais uma história grotesca de terror ou de ficção científica do que um relato de crime e mistério: pelo menos dois comentaristas respeitados, D. Martin Dakin e W.W. Robson (que editou a história para uma coleção da Universidade de Oxford) comparam-na a “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde”, de Robert Louis Stevenson.

A opinião crítica tende a ser quase unanimemente negativa. Como o narrador, Dr. John H. Watson, diz ter selecionado a história para publicação dentre várias outras, ainda inéditas, de seus arquivos, mais de um comentarista já lamentou que exatamente essa tenha sido a escolhida para vir à luz. “Podia bem ter ficado na caixa”, reclama Michael Hardwick em “Sherlock Holmes: The Complete Guide”.  Menos ironicamente, muitos se perguntam de onde Conan Doyle tirou a ideia, afinal – glândulas de macaco para restaurar a potência sexual de um humano idoso?

Seria darwinismo torto? O texto introdutório da edição de W.W. Robson traz a chave: “’The Creeping Man’ tem um interesse especial por refletir o escarcéu em torno dos experimentos de Voronoff com glândulas de macaco do início dos anos 1920”.

E aqui se vislumbra uma página hoje quase esquecida da história da medicina, página tão ou mais grotesca que o conto de Conan Doyle, e um par lições – uma, sobre como a história, quando os vencedores terminam de escrevê-la, é então sutilmente editada pelos perdedores, para que a derrota possa parecer ou menos vergonhosa, ou pelo menos culpa de uma minoria pouco representativa; outra, sobre as consequências graves que a soberba médica, a magnificação desproporcional do caráter “artístico” da medicina e o apego ferrenho aos mitos, ainda hoje muito populares, da “intuição” do médico e do valor transcendental da “evidência da experiência clínica” podem produzir.

 

Fonte da juventude

A história completa está no livro “The Monkey Gland Affair”, do médico escocês especialista em transplantes David Hamilton. Publicada na década de 1980, hoje em dia a obra só se encontra em lojas de livros usados, o que é uma pena. Deveria ser lida em cursos de metodologia científica de todo o mundo. Ali, Hamilton conta como, num período que, em linhas gerais, vai de 1919 a 1931, cirurgiões de diversas partes do mundo (incluindo um par no Rio de Janeiro) fizeram fama e fortuna operando os testículos de homens preocupados com a “perda de vigor trazida pelo envelhecimento” – essa era a desculpa oficial – para “rejuvenescê-los”.

As cirurgias eram de dois tipos: transplantes de tecido testicular – fatias de testículos de doadores eram costuradas aos testículos do paciente – ou vasectomia parcial (mantendo um dos testículos do paciente intocado). No caso dos transplantes, os “doadores” podiam ser outros seres humanos ou animais (os mais populares eram bodes e macacos).

O raciocínio por trás dos procedimentos era vago e falacioso. Os transplantes tentavam justificar-se apelando para o jargão da jovem ciência da endocrinologia, mas no fundo o que havia era puro pensamento mágico: a transferência do “poder da juventude” dos testículos de moços para idosos é apenas uma versão sanitizada do ritual de comer o coração do inimigo para ganhar sua coragem em batalha, afinal. Quanto aos bodes, o folclore os vê como animais especialmente lascivos; e o macaco era visto como uma versão mais primitiva, natural (portanto, vigorosa) do ser humano. Já a vasectomia parcial aplicava lógica reversa aos supostos “perigos” da masturbação: se o desperdício de sêmen causa fraqueza e impotência, o represamento...

“The Monkey Gland Affair” argumenta amiúde contra o que se tornou a “versão oficial” na história da medicina sobre todo o episódio – que os “enxertadores de glândula” eram um bando de charlatões operando às margens do sistema, que nunca foram levados a sério pela comunidade médica – e demonstra que se trata de uma grande mentira. Havia charlatões no meio, mas muitos outros eram profissionais respeitados, convidados de honra em importantes congressos, autores de artigos técnicos publicados em periódicos de prestígio. Os livros de Serge Voronoff, principal promotor da técnica do enxerto de testículos de macaco, recebiam resenhas elogiosas no British Medical Journal.

 

Veterinários para o resgate

Hamilton debruça-se com especial ênfase sobre a biografia de Voronoff, apontando que o casamento com uma herdeira milionária fez dele um homem imensamente rico, que não precisaria jamais trabalhar para viver – e, ainda assim, ele continuou a operar (ainda que com intervalos para longas férias na Riviera) e a escrever, promovendo não só os enxertos de macaco para curar impotência masculina, mas também enxertos testiculares em animais de criação para aumentar a vida útil de machos reprodutores e estimular a produção de lã em ovelhas. O governo francês levou suas propostas ovino-pecuárias tão a sério que pôs algumas criações na Argélia a seu dispor.

O fim da era dos enxertos glandulares teve várias causas, entre elas o anúncio da descoberta da testosterona, em 1929, e a crescente tomada de consciência a respeito do problema da rejeição de tecidos transplantados. Crucialmente, não parece ter havido nenhuma grande revolta de pacientes contra as cirurgias efetivamente inúteis a que haviam se submetido – muitos, pelo contrário, davam depoimentos emocionados e cheios de gratidão – e poucos parecem ter associado as doenças, incluindo DSTs, que provavelmente receberam junto com o tecido animal, à intervenção cirúrgica.

Em 1930, quando John Brinkley, o “papa” dos enxertos de testículo de bode e único charlatão de fato a aparecer no livro de Hamilton (seu diploma de medicina era inválido) foi a julgamento, ex-pacientes testemunharam para a defesa, e seus advogados demonstraram que os enxertos glandulares eram uma prática médica aceita, citando os tratados de Voronoff e o fato de que importantes cirurgiões americanos, respeitados, realizavam ou haviam realizado enxertos. No fim, a única prova concreta contra Brinkley foi o diploma falso, não pacientes agravados ou o caráter bizarro de seus métodos.

A prova cabal de que os enxertos de testículo eram inúteis veio de veterinários que, ao tentar reproduzir de forma controlada os resultados prometidos por Voronoff em ovelhas, não só não encontraram nenhum benefício como descreveram corretamente as características microscópicas do processo de rejeição. Os principais experimentos foram descritos por Henri Velu, veterinário baseado no Marrocos, em um artigo de 1928. Ironicamente, os defensores dos enxertos acusaram Velu de ter sido “iludido por observações pessoais”.

 

Fantasia

Voronoff morreu em 1951, provavelmente ainda convencido de que seu trabalho havia beneficiado a Humanidade. É uma ilusão que pode soar implausível, mas que é extremamente fácil de produzir – como os casos recentes da hidroxicloroquina e da ivermectina para COVID-19 e, quase uma década atrás, da fosfoetanolamina sintética para câncer, bem demonstram. Só o que se requer é uma ideia ruim, uma figura carismática com mais autoconfiança do que bom senso e um público ávido por soluções fáceis para problemas complexos.

Sem controles adequados, a situação escala para um cenário onde aparentes sucessos ganham destaque e óbvios fracassos são varridos para debaixo de tapete, em que o efeito placebo soma-se à pressão imposta aos pacientes – pelo médico, pela sociedade, por si mesmos – para que “apresentem melhora” (afinal, se “todo mundo” está se curando menos eu, a culpa deve ser minha) e em que as falhas que não se deixam ignorar sempre têm “alguma outra causa”.

Há algo de divertido numa história em que a medicina arrogante “velha escola”, baseada em experiência clínica, intuição “genial”, aplauso dos pacientes e opinião dos doutos colegas é desbancada pela veterinária baseada em evidências, mas não desprezemos o sofrimento humano – e animal – envolvido. O número de macacos capturados na natureza, transferidos para cativeiro e castrados para gerar insumos para essas cirurgias inúteis é desconhecido; o número de pacientes prejudicados na saúde, além de no bolso, também.

Em “The Creeping Man”, Conan Doyle faz o pobre doutor apaixonado assumir, periodicamente, características físicas e comportamentais de um símio. Nenhum paciente de Voronoff, até onde se sabe, teve o mesmo problema (e nenhum dos de Brinkley, também até onde se sabe, passou a balir).

Antes do trabalho de Velu no Marrocos e dos avanços da ciência fundamental sobre hormônios e rejeição, as principais críticas à moda dos enxertos testiculares não questionavam sua eficácia, mas sim supostos efeitos colaterais, inclusive sobre a evolução humana: como seriam as crianças produzidas por sêmen "contaminado" por células de macaco? Eram fantasias paranoicas pessimistas construídas sobre fantasias utópicas otimistas, sem que ninguém, no meio da gritaria, se desse ao trabalho de parar por um minuto e checar a realidade. Passaram-se cem anos, mas em essência o mundo e a Humanidade mudaram muito pouco.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, e "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares)

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