Mais solidariedade pode ajudar a esperar a vacina

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26 nov 2020
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Durante meu doutorado, trabalhei com esquistossomose e frequentei o curso de um renomado imunologista no Egito. Disse ele: “Essa doença pode ser evitada, é só ter saneamento básico e usar botas de borracha nas águas contaminadas”. Fiquei com isso na cabeça. Tanto dinheiro gasto com pesquisas sobre vacinas para a esquistossomose, com o desenvolvimento de novos medicamentos e, quase 20 anos depois, a doença continua sendo uma ameaça.

Agora, em 2020, com a morte de centenas de milhares de pessoas por COVID-19, lembramos de conceitos básicos da biologia de vírus. O vírus só se propaga se estiver dentro de uma célula hospedeira, sobrevivendo pouco tempo no ar. Ou seja, se dificultarmos a infecção das células pelo vírus, ele não sobrevive. Como podemos fazer isso? Nesse caso, as medidas são mais simples do que construir sistemas de saneamento básico, ou mesmo usar botas de borracha: basta evitar aglomerações, lavar as mãos com frequência e usar máscaras

São medidas simples, mas também muito difíceis de implementar. Assim como não acabamos com a esquistossomose por falta de investimento em saneamento básico, não acabaremos com o coronavírus por falta de educação e por egoísmo da sociedade.

Tanto para a esquistossomose quanto para a COVID-19, as medidas preventivas ajudariam muito a diminuir a disseminação do parasito e do vírus, respectivamente. Ainda não temos uma medida mais duradoura, como a vacina ou um medicamento eficaz, não político. No caso da esquistossomose, infelizmente até hoje não existem vacinas contra doenças parasitárias, embora existam alguns ensaios clínicos, graças ao investimento contínuo em pesquisas. Sim, junto com medidas sanitárias, devemos continuar pesquisando.

Já com relação ao coronavírus, também existem várias vacinas em fases avançadas de testes, mas ainda vai demorar até que provem a eficácia delas e que possam ser distribuídas para o mundo inteiro.

A vacina que de fato a nossa sociedade doente necessita, no momento, é a da educação, da solidariedade, contra o egoísmo. Uma que torne as pessoas conscientes de que, neste momento, devemos, sim, restringir nossos contatos e respeitar o próximo. É preciso, acima de tudo, acreditar na Ciência. 

 

Deborah Schechtman é professora associada do Departamento de Bioquímica do IQ-USP

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