Tecnologia 5G não tem nada a ver com a COVID-19

Questão de Fato
21 abr 2020
antenas

 

Câncer, explosão em posto de gasolina e COVID-19. O que essas três coisas, aparentemente distintas, poderiam ter comum? Surpreendentemente, não existe apenas um só fator comum, mas três: o telefone celular, o YouTube e a estupidez humana.

Nunca é demais repetir que correlação e causação são duas coisas completamente diferentes. Constitui uma falácia, um erro de raciocínio lógico, assumir que se um evento A aconteceu antes de um evento B, então A é causa de B. E se ainda não estamos no nível de boçalidade política para proibir o consumo de água (100 % dos assassinos consumiram este produto antes de cometer seus crimes), estamos no nível de estupidez de ter uma lei municipal de São Paulo proibindo o uso de aparelhos celulares em postos de gasolina. Esta lei já existe também em outras cidades.

Quando você conversa ou troca mensagens em algum aplicativo você está compartilhando informação. Essa informação é transmitida através das ondas eletromagnéticas, captadas pela antena do telefone celular. O celular recebe uma sequência de sinais e os traduz para uma imagem, texto ou som que é possível visualizar na tela do aparelho.

A radiação eletromagnética pode ser classificada de acordo com a sua frequência (a quantidade de oscilações da onda em um intervalo de tempo). Em ordem crescente de frequência, temos as ondas de rádio AM e FM, micro-ondas, infravermelho, luz visível, ultravioleta, raios X e raios gama. Vale comentar que o espectro de luz visível é uma estreitíssima faixa de frequência entre o infravermelho e o ultravioleta: a imensa maioria das frequências de radiação é invisível aos nossos olhos. Mas, como essa radiação pode afetar o corpo humano?

As ondas mencionadas no parágrafo anterior podem também ser divididas em dois grupos: radiação ionizante e não-ionizante. A partir do ultravioleta, a onda possui uma frequência que permite que ela "arranque" elétrons de átomos e moléculas, transformando-os em íons – daí o nome, “ionizante”.

Essa alteração pode causar danos no DNA, resultando no aparecimento de um câncer. Radiação não ionizante, embora não cause alteração nos genes, também pode provocar algum dano dependendo, por exemplo, da sua potência e do tempo de exposição da pele. É só lembrar que algumas cirurgias utilizam lasers nos procedimentos. Voltemos ao celular.

Qual é a nova bobagem associada ao celular? Em algumas partes do mundo, pessoas estão incendiando antenas da nova rede de internet 5G porque acreditam que elas estejam espalhando o Sars-CoV-2. A lenda relacionando as ondas eletromagnéticas com a pandemia da COVID teve origem em um vídeo do YouTube de um senhor chamado Thomas Cowan. Apesar do vídeo original já ter sido removido da plataforma, ainda é possível encontrá-lo em páginas conspiracionistas, inclusive com comentários malucos endossando o besteirol.

Como eu escrevi no início do texto, se as pessoas conseguissem entender que correlação é diferente de causação, boa parte das pseudociências sumiria espontaneamente. Toda a narrativa criada por Cowan baseia-se na falácia conhecida como post hoc ergo propter hoc (depois disso, logo, causado por isso). Ele diz que antes de cada pandemia dos últimos 150 anos ocorreu um “salto quântico” na eletrificação do planeta. A frase, por si só, já é desprovida de qualquer significado, mas uma postagem no Twitter nos dá uma pista do que ele provavelmente quis dizer.

A postagem do Twitter propõe a seguinte relação: a gripe espanhola, a SARS, a gripe suína e a COVID-19 foram causadas, respectivamente, pelo surgimento ou aumento da utilização das tecnologias que emitem ondas de rádio, e das tecnologias 3G, 4G e 5G. Esse raciocínio pueril seria equivalente a dizer que a atual situação do Brasil, em relação ao SARS-CoV-2, foi causada pela ausência do especial do Roberto Carlos no final de 2019.

É indispensável avaliar a segurança de uma nova tecnologia ou medicamento antes de oferecê-los à sociedade. Na imensa maioria dos países, isso é feito pelas agências reguladoras governamentais, amparadas em pareceres técnicos de cientistas. Enganos podem ocorrer em todas as áreas, mas no caso específico da quinta geração de internet móvel, 5G, o medo é somente baseado em lendas do YouTube.

A tecnologia 5G promete ser muito superior à 4G trazendo um grande avanço aos smartphones. Assim como nas tecnologias anteriores, o 5G também opera com ondas que estão localizadas entre FM e micro-ondas. Pergunta: é uma radiação ionizante ou não-ionizante? A resposta é não-ionizante, ou seja, não existe possibilidade de que esta radiação, nas condições de funcionamento de um celular, tenha qualquer efeito sobre o DNA e esteja, portanto, associada a algum tipo de câncer.

O aparecimento de câncer associado à radiação eletromagnética dos celulares e antenas ainda é uma preocupação para algumas pessoas. Um estudo grande conduzido na Dinamarca já descartou qualquer associação do uso de celulares e tumores de cérebro, glândula salivar, leucemia e outros. Apesar do estudo ter sido conduzido no contexto de uma tecnologia anterior à 5G, uma extrapolação para a situação atual não é descabida, tendo-se em vista que a região do espectro eletromagnético onde as tecnologias de comunicação de celulares operam continua sendo a mesma.

Caso você não seja um daqueles conspiracionistas que utiliza chapéu de alumínio para evitar que o governo leia os seus pensamentos, não existe nenhum fundamento, teórico ou experimental, para dizer que a tecnologia 5G debilita o seu sistema imunológico, ou achar ainda que o SARS-CoV2 surfa nas ondas eletromagnéticas.

 Marcelo Yamashita é doutor em Física, professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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