Percepção de risco rege reação das pessoas à COVID-19

Questão de Fato
24 abr 2020
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risco

 

 

“Since German unification—no, since the Second World War—no challenge to our nation has ever demanded such a degree of common and united action.” Angela Merkel em sua fala à nação alemã, a respeito do novo coronavírus.

 

O atual cenário de pandemia em consequência do SARS-Cov-2 tem apresentado uma série de desafios de ordem política e social. Dentre eles, destaca-se a necessidade de ações coletivas e coordenadas, para implementar medidas sociais de contenção da epidemia, como isolamento social e comportamentos de prevenção, tendo em vista que estas são consideradas ações de grande eficiência para diminuir a taxa de contágio, evitar a sobrecarga dos serviços de saúde e reduzir a  letalidade.

Uma série de estudos europeus e asiáticos sobre duas epidemias de coronavírus ocorridas nas últimas décadas têm apontado que um dos principais fatores associados a uma organização coletiva e eficiente de adesão a comportamentos de prevenção e de quarentena é a percepção individual de riscos associados à doença (LAU et al., 2003; SHI et al., 2003; BRUG; ARON; RICHARDUS, 2009; RUBIN et al., 2009; CHOI; KIN, 2016).

A percepção de risco diz respeito à avaliação subjetiva que as pessoas fazem sobre as características e a severidade de um risco, e é considerada um fator necessário (porém não suficiente) em modelos teóricos que buscam explicar comportamentos de prevenção, como no caso da Teoria da Motivação à Prevenção ou o Modelo de Crença na Saúde. Tais modelos preveem que o comportamento de prevenção resulta da combinação de três fatores principais: (i) percepção de risco, como conhecimento do risco de contágio e severidade da doença; (ii) resultados esperados da adoção dos comportamentos de prevenção; (iii) e crença na auto-eficácia, ou seja, a crença de cada indivíduo em sua capacidade de controlar a situação (LEEPIN; ARO, 2009). Logo, diante de uma pandemia ainda sem vacina ou tratamento, os comportamentos de prevenção são essenciais e dependem da comunicação efetiva desses três fatores (BRUG; ARON; RICHARDUS, 2009).

Por exemplo, países que disponibilizam rapidamente informações adequadas sobre o número de casos e a real eficácia das medidas de prevenção têm maior sucesso no gerenciamento de crises em saúde pública, uma vez que a percepção real do risco leva à adoção de comportamentos de prevenção, relacionados à diminuição no número de casos de contaminação (LAU et al., 2003). Na pandemia do novo coronavírus, isso pode ser observado em países como Alemanha e Nova Zelândia. Além disso, estudos realizados na Coreia do Sul e no Reino Unido, sobre epidemias de gripe, demonstraram que comportamentos de prevenção estavam positivamente correlacionados à percepção de risco, ao nível de conhecimento da doença e à auto-eficácia (RUBIN et al., 2009; CHOI; KIM, 2016).

No entanto, a apresentação de dados e estatísticas reais não necessariamente gera, em todas as pessoas, a mesma percepção de risco. A percepção de risco, como qualquer outro fenômeno perceptual, é o resultado da organização e interpretação que damos aos estímulos que recebemos do ambiente. Assim, os mesmos números podem resultar em percepções de risco diferentes entre as pessoas o que, por sua vez, podem modificar a probabilidade de um indivíduo aderir a comportamentos de prevenção.

Por exemplo, muitas pessoas acreditam ser pouco suscetíveis a eventos negativos como o novo coronavírus. Na base dessa percepção de baixo risco, está o chamado viés otimista. Essa percepção otimista, relacionada à falsa sensação de familiaridade com a doença (por exemplo, “é apenas uma gripe como outra qualquer”), resulta em baixa adesão aos comportamentos de prevenção. Por outro lado, a percepção exagerada sobre o risco de contrair a doença, associada ao viés pessimista, pode ter o efeito contrário, resultando em pânico, ou até mesmo em estigmatização e agressão a grupos sociais associados de alguma forma à doença (BRUG; ARO; RICHARDUS, 2009; CHOI et al., 2017).

A percepção inadequada de risco também pode estar associada à descrença nas notícias e veículos de informação. Em estudo realizado no Reino Unido, Rubin e colaboradores (2009) demonstraram que os participantes que disseram acreditar que as notícias eram exageradas apresentaram menor comportamento de prevenção, consequentemente, aumentando o risco de contágio. Assim, não basta apenas informar adequadamente sobre a epidemia, mas também impedir a propagação de falsidades. Tais efeitos podem ser ampliados caso as informações falsas venham de figuras com os quais temos identificação social, como sugerido por modelos de contágio da rede social na percepção de risco (SCHERER; CHO, 2003) e demonstrado por estudos com percepção de risco em outras epidemias, como HIV (RHODES, 1997).

No Brasil, o risco de influência social negativa tem sido percebido nos discursos de algumas figuras públicas, como artistas, políticos e empresários (a maioria, sem domínio em ciências da saúde), que têm minimizado a severidade da epidemia, em clara contraposição aos fatos apresentados e às medidas sugeridas por pesquisadores, profissionais habilitados e organizações internacionais de saúde. A soma dos vieses, apresentados com mensagens minimizando os riscos do novo coronavírus, culmina, por exemplo, em aglomerações de pessoas manifestando-se em plena Avenida Paulista em defesa do fim do isolamento físico, e contra o que eles acreditam ser uma “invenção comunista”.  

Além dos vieses e efeitos sociais, outras características pessoais e culturais têm sido relacionadas à percepção de risco. Por exemplo, um estudo de Jang et al. (2020) feito na Coreia do Sul identificou que mulheres, pessoas idosas e famílias de baixa renda demonstraram percepção elevada de risco. Rubin et al. (2009) identificou que, no Reino Unido, a percepção de risco e a aderência a comportamentos de prevenção era maior em grupos raciais minoritários. Esses estudos sugerem que o pertencimento a grupos socialmente ou economicamente mais vulneráveis influenciam a percepção de risco e o comportamento de prevenção.

percepção de risco impacta diretamente na adoção de comportamentos preventivos e de proteção individual e coletiva. No entanto, a percepção não é a mesma entre as pessoas, podendo ser modulada e distorcida em função de vieses, descrença na mídia, informações falsas e contraditórias ou falta de um discurso coordenado entre as autoridades.

A “moral” dessa história é que os meios de comunicação são cruciais, ao informar adequadamente sobre a severidade da epidemia, a eficácia das medidas possíveis de contenção e a capacidade individual de controle na mitigação da epidemia (SHI et al., 2003; BULTS et al., 2011). Mais ainda, é necessário que as lideranças políticas implementem ações seguindo as orientações dos cientistas e profissionais de saúde, e respeitem o esforço sério e dedicado de jornalistas, deixando claro para a população os riscos existentes.

Infelizmente, os presidentes do Brasil, Turcomenistão e Bielorrússia têm minimizado os riscos dessa pandemia e, como mostramos, podem estar interferindo na percepção que a população tem dos riscos e dos comportamentos necessários para proteção e prevenção. Para esses presidentes vale aquele velho dito popular: "se não conseguem ajudar, não atrapalhem".

Gabriel Gaudêncio Rêgo é doutor em Psicologia e professor na especialização de Neurociências e Psicologia dea Universidade Presbiteriana Mackenzie

Paulo Sérgio Boggio é coordenador do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

REFERÊNCIAS

 

BRUG, Johannes; ARO, Arja R.; RICHARDUS, Jan Hendrik. Risk perceptions and behaviour: towards pandemic control of emerging infectious diseases. 2009.

 

BULTS, Marloes et al. Perceived risk, anxiety, and behavioural responses of the general public during the early phase of the Influenza A (H1N1) pandemic in the Netherlands: results of three consecutive online surveys. BMC public health, v. 11, n. 1, p. 2, 2011.

 

CHOI, Jeong-Sil; KIM, Ji-Soo. Factors influencing preventive behavior against Middle East respiratory syndrome-coronavirus among nursing students in South Korea. Nurse education today, v. 40, p. 168-172, 2016.

 

CHOI, Doo-Hun et al. The impact of social media on risk perceptions during the MERS outbreak in South Korea. Computers in Human Behavior, v. 72, p. 422-431, 2017.

 

JANG, Won Mo et al. Influence of trust on two different risk perceptions as an affective and cognitive dimension during Middle East respiratory syndrome coronavirus (MERS-CoV) outbreak in South Korea: serial cross-sectional surveys. BMJ open, v. 10, n. 3, p. e033026, 2020.

 

KIM, Sunhee; KIM, Seoyong. Exploring the determinants of perceived risk of Middle East Respiratory Syndrome (MERS) in Korea. International journal of environmental research and public health, v. 15, n. 6, p. 1168, 2018.

 

LAU, J. T. F. et al. Monitoring community responses to the SARS epidemic in Hong Kong: from day 10 to day 62. Journal of Epidemiology & Community Health, v. 57, n. 11, p. 864-870, 2003.

 

LEPPIN, Anja; ARO, Arja R. Risk perceptions related to SARS and avian influenza: theoretical foundations of current empirical research. International journal of behavioral medicine, v. 16, n. 1, p. 7-29, 2009.

 

RHODES, Tim. Risk theory in epidemic times: sex, drugs and the social organisation of ‘risk behaviour’. Sociology of Health & Illness, v. 19, n. 2, p. 208-227, 1997.

 

SCHERER, Clifford W.; CHO, Hichang. A social network contagion theory of risk perception. Risk Analysis: An International Journal, v. 23, n. 2, p. 261-267, 2003.

 

SHI, Kan et al. Rationality of 17 cities’ public perception of SARS and predictive model of psychological behavior. Chinese Science Bulletin, v. 48, n. 13, p. 1297-1303, 2003.

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