Os vieses que atrapalham a contenção da pandemia

Questão de Fato
12 ago 2020
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Por que parece tão difícil adotar ações voltadas para a prevenção?

Ações de prevenção são complexas em termos sociais – pois exigem coordenação entre múltiplos agentes – e em termos cognitivos – pois exigem um nível de planejamento, racionalização e abstração difícil de contemplar.

Basicamente, a mente humana não é tão bem preparada para o planejamento, a abstração e a visualização de diferentes cenários futuros. Nossa mente prioriza “atalhos cognitivos” (heurísticas) para alcançar conclusões de modo mais rápido e intuitivo.

Tais “atalhos cognitivos” levam a erros – que testemunhamos na resposta à pandemia de COVID-19. Para reagir de modo eficiente a uma pandemia, precisamos coordenar esforços entre múltiplos agentes com diferentes condições materiais, fatores psicossociais, acesso a recursos, níveis de conhecimento, interesses e percepções de risco.

Para incentivar medidas de prevenção, precisamos adotar ações de comunicação capazes de intervir nos principais vieses cognitivos que dificultam a prevenção. Esses vieses são:

 

VIÉS DA PERSONIFICAÇÃO (EFEITO DA VÍTIMA IDENTIFICÁVEL): Temos a tendência a nos preocupar mais com ameaças e vítimas concretamente identificáveis (com nome, personalidade, história, família, e danos vivenciados de forma detalhada) do que com vidas contabilizadas em estatísticas em grande escala. Por isso, histórias pessoais e relatos de caso conferem mais certeza e credibilidade e mobilizam mais que métricas populacionais (um aumento de 12 para 24 mortes tende a ser visto como mais dramático e menos aceitável que um aumento de 85.342 para 87.691). A apresentação de números muito altos de mortes (em escalas além do facilmente visualizável no cotidiano) traz um “entorpecimento psicológico”, inibindo a empatia e o sentimento de urgência, resultando em inação.

VIÉS OTIMISTA: Quando nos deparamos com a incerteza e a possibilidade de diferentes desfechos, temos a tendência a confiar mais nos cenários mais otimistas do que nos mais pessimistas. Esse viés prejudica nossa percepção de risco e, quanto mais distante no tempo o desfecho, com mais otimismo tendemos a vê-lo.

VIÉS IMEDIATISTA: Temos a tendência a priorizar benefícios imediatos em vez de benefícios futuros.  O viés imediatista faz com que ações de atenção terciária (hospitalização, ventilação mecânica) pareçam mais urgentes e cruciais no enfrentamento da pandemia que ações de atenção primária (uso de máscaras, distanciamento social, identificação de contatos, testagem). Ainda, o viés imediatista faz com que se dê preferência a prazeres imediatos, em vez de resultados sanitários futuros.

VIÉS DE OMISSÃO: O viés de omissão faz com que um dano resultante da ausência de ação seja percebido como menos grave – ou até totalmente desculpável – que um dano resultante de ação direta e visível, ainda mais se a responsabilidade for diluída no coletivo. Assim, a própria ausência de planejamento funciona como uma maneira de evitar da atribuição da responsabilidade – que seria mais facilmente atribuída a uma ação que a uma omissão.

 

Estratégias de comunicação

A resposta a epidemias e pandemias exige a mobilização coordenada dos sistemas de saúde e outros setores (escolas, indústria, logística, transportes, legislação, segurança, comércio, e até mesmo hotelaria). Entretanto, o alinhamento da tomada de decisão nas diferentes instâncias institucionais, e dos comportamentos de prevenção da população em geral, depende de uma comunicação efetiva.

Para isso, as estratégias de comunicação devem ser baseadas na ciência psicológica, de modo a corrigir vieses cognitivos e incentivar atitudes e prática apropriadas. Algumas estratégias de comunicação que podem ser adotadas para incentivar medidas de prevenção ao novo coronavírus são:

O viés da personificação (efeito da vítima identificável) pode ser abordado por mensagens que enfatizam os riscos e consequências para a própria pessoa ou seus familiares, com as consequências descritas de forma concreta – em especial as sequelas de longo prazo (dano neurológico, trombose, fibrose pulmonar). Ainda, a coleta de depoimentos de sobreviventes pode expressar, de modo mais concreto e identificável, o problema das mensagens que são percebidas como “abstratas” ou de larga escala.

O viés otimista pode ser abordado por mensagens que enfatizam as expectativas positivas, mas garantam a precaução (“Esperamos o melhor, mas agimos para evitar o pior”). A comparação constante com cenários projetados também tem potencial de facilitar a compreensão a população e o alinhamento de esforços ( “Entre os cenários A, B, C, e D, estamos próximos do cenário C, sendo A o melhor cenário e D o pior cenário. Vamos nos esforçar. O cenário D significaria (...)”)

O viés imediatista pode ser abordado pelo reconhecimento de esforços presentes visando benefícios futuros, bem como representar os benefícios futuros como quase imediatos (“Adotar essas medidas agora é a garantia de termos um amanhã”). Ainda, os riscos futuros podem ser ilustrados de forma mais imediata, como consequências próximas do presente, de modo a facilitar a compreensão.

O viés de omissão pode ser abordado com a identificação das atribuições e responsabilidades de cada agente (cargo, instituição, setor, parcela da população) de modo a evitar a dispersão da responsabilidade. Para isso, também é necessário monitorar indicadores de desempenho e comparar o desempenho real com diferentes cenários projetados. O uso de indicadores é importante para o poder público justificar ações, que podem fazer referência constante aos cenários projetados (“Tal ação deve possibilitar a prevenção de X mortes” ou “X vidas salvas pela medida adotada”).

A utilização de mensagens que levam em conta os vieses cognitivos pode diversificar as estratégias de comunicação, segmentando mensagens para diferentes públicos, e facilitar o alinhamento de ações de prevenção. A comunicação representa mais uma frente de trabalho na resposta à pandemia de COVID-19, e precisa ser abordada de modo estratégico e informado por evidências. O conhecimento dos vieses psicológicos que influenciam nossas decisões pode informar práticas de comunicação mais efetivas, e contribuir para a resposta social à pandemia.

 

Bruno Graebin de Farias é psicólogo e doutor em Psicologia (UFRGS)

 

REFERÊNCIAS

Darley, J. M. & Latané, B. (1968). "Bystander intervention in emergencies: Diffusion of responsibility". Journal of Personality and Social Psychology. 8 (4, Pt.1), 377–383. doi:10.1037/h0025589

Halpern, S.D., Truog, R.D., Miller, F.G. (2020). Cognitive Bias and Public Health Policy During the COVID-19 Pandemic. JAMA, 324(4), 337–338. doi:10.1001/jama.2020.11623

Slovic, P. (2007). "If I look at the mass I will never act": Psychic numbing and genocide. Judgment and Decision Making, 2(2), 79–95.

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