"Caso Varginha" é mitologia nascendo em tempo real

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1 dez 2025
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placa indicando ET

Como o leitor deve ter percebido, o Caso Varginha acabou se tornando uma obsessão minha. Não porque eu acredite que extraterrestres tenham caído no sul de Minas. Não, definitivamente não. Meu fascínio vem do fenômeno humano por trás do caso. Prestes a completar 30 anos, cada vez mais a mitologia vai se transformando e ganhando detalhes que não estavam presentes na narrativa original. Essa evolução me cativa, pela oportunidade de ver nela um sistema de estudo sobre como as crenças em coisas estranhas funcionam.

O Caso Varginha é uma coletânea de muitos “fatos” conectados entre si por um estilo conspiratório de pensamento. Mas para os propósitos da discussão de hoje, basta que o leitor saiba que, alega-se, uma criatura (extraterrestre?) foi capturada na noite do dia 20 de janeiro de 1996, após uma tempestade sem precedentes, e foi levada aos hospitais de Varginha. Sim, os militares seriam tão ineficientes no acobertamento que permitiram que a criatura fosse levada não a um, mas a dois hospitais (e um pronto-socorro antes disso!) na cidade de Varginha, em vez de ter simplesmente sido ocultada. Um desses hospitais teria sido o Hospital Regional. Lá, na época, trabalhava um neurocirurgião, Ítalo Venturelli.

 

Mais alegações extraordinárias

Declarações feitas nos últimos meses reacenderam uma chama que nunca se apagou desde janeiro de 1996. Entre elas, as do médico Ítalo Venturelli e do pesquisador Vitório Pacaccini, figuras centrais da narrativa contemporânea do caso. Ambos dizem ter visto, em momentos distintos, registros visuais de criaturas não humanas supostamente capturadas em Varginha.

Mas há um problema: os relatos não coincidem. E, quando coincidem, a convergência é apenas superficial, exatamente como se esperaria se fossem apenas repetições, conscientes ou inconscientes, de um mito já estabelecido.

Pacaccini afirma ter visto, em 2012, um vídeo de 35 segundos, filmado com câmera Super 8, mostrando uma criatura sendo contida por dois militares. A descrição é quase cinematográfica: ambiente burocrático, mesa ao fundo, telefone fixo, criatura frágil, sem pupilas aparentes, recusando alimento, aparentemente prestes a desabar. Há um detalhe curioso: Pacaccini diz que o cheiro forte emanado pela criatura foi comentado no vídeo. O odor é um elemento antigo e recorrente na mitologia do caso, o famoso “cheiro de amônia”, quase um marcador canônico da criatura.

O depoimento tem estrutura, sequência e narrativa. Funciona como peça dramática.

Já o relato de Venturelli é mais vago, fragmentado, hesitante e mutável. Em 2023, em entrevista aos investigadores João Marcelo e Marco Leal, ele afirmou que um colega médico lhe mostrara um vídeo, lá mesmo no Hospital Regional, no qual se podia ver uma maca metálica, a criatura de tórax fino, olhos avermelhados, quatro ou cinco pessoas ao redor usando jalecos ou roupas de centro cirúrgico. Não havia militares. Segundo ele, o ambiente parecia mais necrotério do que enfermaria.

Mais recentemente, neste último mês de novembro, no entanto, Venturelli passou a afirmar não apenas que viu um vídeo, mas sim a criatura, ao vivo. Não é um detalhe menor. É uma reescrita. Tudo bem, eu sei que os entusiastas do caso sempre alegam que, nas entrelinhas, o médico sempre insinuou que tinha visto a criatura, não só o vídeo. Ainda assim, são versões diferentes. Importante dizer, as duas coisas não são mutuamente excludentes. Embora, nesse caso, ambas sejam extremamente improváveis.

Enquanto Pacaccini insiste em um ambiente informal com militares segurando o ser, Venturelli descreve um cenário hospitalar com profissionais civis. Um fala em corpo marrom, o outro em corpo esbranquiçado. Um descreve protuberâncias ósseas longas e curvas; o outro dá a entender que essas estruturas seriam mais discretas. Ambos mencionam formato de gota para a cabeça; mas Pacaccini só passou a usar esse termo depois das declarações de Venturelli. Seria coincidência? Ou seria o processo cultural conhecido como contaminação narrativa, em que novas versões retroalimentam versões antigas?

Claro, pela descrição, Pacaccini teria visto um vídeo, enquanto o médico visto outro. Porém, as descrições diferem o bastante para justificar a dúvida: eles estão descrevendo a mesma criatura? Por sinal, em alguns momentos a descrição que Venturelli dá da criatura e do ambiente (esbranquiçada, cabeça em formato de gota, pessoas com jaleco em volta), lembram-me do filme Roswell, de 1994.

Óbvio que os defensores do caso já têm uma resposta pronta para isso: havia mais de um tipo de criatura! É óbvio! Como eu não pensei nisso antes? Esse tipo de raciocínio torna impossível falsear a narrativa. Apareceu um relato que dá suporte à narrativa extraterrestre, mas a descrição da criatura difere do padrão? Sem problemas! É só MAIS UMA criatura. Nunca se permite a contradição, só a confirmação.

Quando comparo os relatos de Pacaccini e Venturelli, o que encontro não é evidência de um ser extraterrestre. O que encontro é evidência de algo muito mais real e prosaico: o processo de construção de um mito contemporâneo em tempo real. Cada nova fala, cada vídeo (descrito, mas jamais exibido), cada contradição resolvida com a criação de “duas criaturas diferentes” ou “outra cena filmada” funciona como tijolo de continuidade. Quando os fatos não encaixam, a mitologia os absorve.

 

O silencio que grita

O maior problema com as declarações de Ítalo Venturelli nem é a mudança de tom, ou versão. Antes ele só tinha visto o vídeo, mas agora confirma que viu a criatura. Muitas pessoas alegam que se trata de uma testemunha que tem muito a perder. E é um médico respeitado. Conclusão? Só pode estar falando a verdade.

Porém, médico ou não, nada do que Venturelli falou até agora é surpreendente. Não há nada de novo. Ele é neurocirurgião há anos. Eu esperaria alguns detalhes mais técnicos sobre a criatura. Como era o “sangue”? Como era o sistema nervoso? Havia um cérebro como o nosso? Quais eram as diferenças mais marcantes, neuroanatomicamente? Nada disso foi apresentado. O que diferencia as alegações do doutor das de qualquer outra pessoa, sem credencial médica? Nada.

Ultimamente, além do Caso Varginha, tenho dado atenção (talvez indevida) a outra história, também fantástica e longe de ter um fim: As Crônicas de Gelo e Fogo. Uma frase é repetida com frequência suficiente, a ponto de poder gerar aborrecimento, embora carregue em si uma grande verdade: palavras são vento. Sem concretude, sem materialidade, seja das provas ou das ações, palavras são só isso: palavras. E palavras são vento...

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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