
Admito que este foi um dos assuntos mais difíceis que comentei até hoje na RQC. Já tratei de temas igualmente delicados e com fatalidades, como os casos de Jess Ainscough e Paloma Shemirani, duas jovens com câncer agressivo que, convencidas por promessas vazias de terapias alternativas, abandonaram a quimioterapia e recorreram à terapia Gerson — uma abordagem pseudocientífica baseada em dietas restritivas, sucos, suplementos e enemas de café.
Diferentemente daqueles casos que, embora tristes, envolviam pessoas distantes da minha realidade, a situação do influenciador e fisiculturista Gabriel Ganley me causou uma inquietação maior. Apesar de não o conhecer, a personalidade que demonstrava em vídeo lembrava a de alguns dos meus poucos amigos. Só posso desejar forças à família e aos amigos.
Dito isso, não é normal um jovem de 22 anos morrer de “causas naturais”. Segundo matéria do G1, o laudo apontou cardiomiopatia hipertrófica, doença caracterizada pelo espessamento do músculo cardíaco, geralmente de origem genética. Isso não isenta os anabolizantes. Mesmo com predisposição, é difícil imaginar que essas substâncias tenham sido irrelevantes, dada sua associação com eventos cardiovasculares adversos — parece-me provável que tenham agravado substancialmente o quadro.
Como mostra o estudo “Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users”, que acompanhou usuários de esteroides anabolizantes por 11 anos, essas pessoas viram o risco de problemas cardíacos mais do que dobrar (e, em alguns casos, quase decuplicar).
Além disso, não se pode descartar hipoglicemia associada ao uso anabólico de insulina, efeito que o próprio Ganley relatou em outro vídeo.
Casos assim deveriam envergonhar quem incentivou a transição do fisiculturismo natural para a busca de um físico inalcançável. Mas o que vemos são patrocinadores e influenciadores lamentando a morte sem nenhuma reflexão a respeito das escolhas que ajudaram a moldar.
Ele não foi o único. Dallas McCarver, citado por Gabriel como inspiração, morreu aos 26 anos após um ataque cardíaco em 2017. Casos semelhantes incluem ainda Juan Sebastián Anzola Quintero, morto aos 26 enquanto treinava; e Wang Kun, fisiculturista chinês que morreu aos 30, em 2025, com suspeitas de doença cardíaca.
E estamos falando apenas de casos que receberam atenção da mídia. Muito provavelmente existe uma parcela muito maior que jamais ganhará manchetes.
O que mais aflige é a quantidade de jovens que, influenciados pelo imaginário do “shape”, segue o mesmo caminho sem compreender plenamente as consequências.
No meu próprio círculo — de adultos, não adolescentes — já houve momentos em que amigos, eu incluso, cogitaram o uso de anabolizantes para acelerar os resultados. Alguns usaram e pararam meses depois; outros, como eu, concluíram que os riscos não compensavam os benefícios.
Uma reportagem da CBS News ilustra isso bem. O jornalista Adam Yamaguchi entrevistou Zaid Laila, criador de conteúdo de 16 anos que documenta sua transformação física, dieta, treino e uso de anabolizantes para centenas de milhares de seguidores.
Mesmo ciente dos riscos, ele afirma que “vale a pena”, já que alcançar o mesmo resultado naturalmente levaria anos. Sua frase final é reveladora: “Se eu tiver um ataque cardíaco aos 30 anos, então terei um ataque cardíaco”.
Embora seja um caso individual, a entrevista expõe algo maior: a banalização dos anabolizantes nas redes sociais, que os transformou em atalho para status, sucesso e validação.
Comportamento de risco
Redes sociais parecem desempenhar um papel central nessa relação entre jovens e o uso de anabolizantes. Antes de aprofundar, porém, vale contestar desde já o argumento de que isso se reduz a uma questão livre-arbítrio.
Em um contexto em que jovens são constantemente expostos à promessa de que podem se tornar mais fortes — e ricos e famosos — em pouco tempo, bastando aderir a substâncias que “talvez nunca causem efeitos colaterais” ou que só os causam décadas mais tarde, é simplista ignorar o peso dessa construção midiática. Isso influencia adolescentes, mais propensos a comportamentos de risco em saúde, lazer, segurança e ética.
Como descrito em “The Current Landscape of Adolescent Risk Behaviour”, do livro Promoting Positive Adolescent Health Behaviors and Outcomes: Thriving in the 21st Century, esse tipo de comportamento aumenta na puberdade, atinge o pico no fim da adolescência e no início da vida adulta, e depois diminui. Em comparação com os adultos, adolescentes tendem a subestimar riscos, superestimar benefícios, ter menos experiência acumulada e ser mais influenciados por emoções e pelo meio social.
Embora não haja consenso sobre todas as causas envolvidas, a literatura aponta que esses comportamentos resultam da interação entre fatores biológicos, desenvolvimento cerebral e contexto. Mudanças hormonais e neurológicas próprias da adolescência favorecem a busca por sensações, recompensas imediatas e uma maior suscetibilidade à influência de terceiros.
O ambiente familiar exerce papel importante. Exposição precoce ao estresse, disfunção familiar e uso de substâncias aumentam a vulnerabilidade a comportamentos de risco, enquanto regras claras, supervisão adequada e vínculos afetivos fortes atuam como proteção.
A influência dos pares também é central. Adolescentes tendem a assumir mais riscos na presença de amigos e frequentemente adotam as normas do grupo como referência para o próprio comportamento. Em muitos casos, a busca por aceitação social e pertencimento pode reforçar decisões perigosas.
As redes sociais amplificam e reorganizam todas essas influências. Modificam normas sociais por meio de mecanismos de validação, como curtidas, comentários e compartilhamentos, e podem tanto apoiar quanto distorcer comportamentos.
Relatório recente do Center for Countering Digital Hate (CCDH), intitulado “TikTok's Toxic Trade: How TikTok Promotes Dangerous and Potentially Illegal Steroids and Steroid-Like Drugs to Teens”, observou que esteroides e substâncias similares (como SARMs — Moduladores Seletivos dos Receptores de Androgênios — e peptídeos), aqui agrupados sob a sigla SLDs, são amplamente promovidos no TikTok, acumulando até 587 milhões de visualizações apenas nos Estados Unidos, sobretudo entre menores de 24 anos.
O dado é relevante porque contrasta diretamente com as diretrizes da própria plataforma, que proíbem a promoção e venda dessas substâncias. Ainda assim, influenciadores que divulgam sites de venda chegam a reunir cerca de 1,8 milhão de seguidores. Estima-se também que o alcance via influenciadores seja até 540 vezes maior do que o de sites isolados.
Entre os conteúdos identificados, há mensagens que sugerem o uso por adolescentes, como “diga aos seus pais que são apenas vitaminas” ou “arrisque-se”.
Empresas que vendem esses produtos tentando escapar da regulamentação raramente fazem marketing direto em redes abertas, recorrendo a influenciadores de fisiculturismo. Esses achados são corroborados pelo estudo “Emerging Anabolic Androgenic Steroid Markets: Prominence of Social Media”, que analisou o fornecimento de esteroides em redes sociais por meio de etnografia digital no Instagram, TikTok e Facebook. A pesquisa identificou dois tipos principais de atores: fornecedores diretos e influenciadores.
Os primeiros comercializam abertamente produtos, mas fazem suas ofertas em mensagens privadas, comentários e até no WhatsApp. Já os influenciadores operam com modelos mais amplos, combinando treino, dietas e suplementos, funcionando como ponte para sites de terceiros.
Em geral, esses influenciadores exibem corpos altamente musculosos, alinhados ao ideal do homem “spornosexual online”, no qual a musculatura desenvolvida serve de capital social e ferramenta de marketing. Mesmo quando não mostram diretamente os produtos, direcionam tráfego via links, códigos promocionais e outras estratégias.
Modos de divulgação incluem mecanismos para contornar a moderação das plataformas, uso de linguagem codificada e conteúdos que funcionam como validação social do consumo. Há ainda relatos de produtos falsificados ou de origem duvidosa, incluindo marcas já descontinuadas, mas que ainda são revendidas online.
Intenções e prevalência
Dentre os diversos artigos relevantes sobre o uso desses produtos por jovens, dois estudos conduzidos pelo mesmo grupo de pesquisadores merecem destaque. Ambos utilizaram dados de “The Study of Boys and Men”, uma pesquisa online sobre imagem corporal entre meninos e homens no Canadá e nos Estados Unidos.
No trabalho mais antigo, publicado em 2025 sob o título “Social Network Exposure and Sociodemographic Factors Associated with Intentions to Use Anabolic-Androgenic Steroids”, os pesquisadores investigaram se a percepção de usuários de anabolizantes na rede social estava associada a maiores intenções futuras de uso dessas substâncias.
O estudo incluiu 1.515 participantes do sexo masculino, com idades entre 15 e 35 anos, recrutados por meio de anúncios nas redes sociais. Os pesquisadores avaliaram a presença percebida de usuários de anabolizantes no círculo social dos participantes e suas intenções futuras de uso.
Embora a maioria não relatasse conviver diretamente com usuários, uma parcela relevante afirmou já ter observado esse comportamento em seu entorno. Observou-se também que a percepção de usuários de anabolizantes na rede social esteve associada a uma maior intenção de utilizar essas substâncias no futuro. Embora as intenções gerais de uso permanecessem relativamente baixas, o interesse em buscar informações sobre anabolizantes foi considerável.
Os autores concluíram que mais de um terço dos participantes percebia a presença de usuários de anabolizantes nas redes, embora as intenções gerais de uso fossem baixas. Ainda assim, observou-se um interesse relevante em buscar informações sobre essas substâncias. O principal achado foi a associação consistente entre a percepção de usuários na rede social e maiores intenções de uso.
Entre as limitações do estudo, destacam-se o caráter não probabilístico da amostra, o uso de autorrelato e o delineamento transversal, que impede inferências causais.
No estudo mais recente, intitulado “Social Media Engagement and Anabolic-Androgenic Steroid Use Intentions Among Boys and Men in Canada and the United States”, os pesquisadores investigaram se diferentes formas de uso das redes sociais estavam associadas às intenções de utilizar anabolizantes.
Foram avaliados o tempo de tela, o engajamento com redes sociais e a exposição a conteúdos relacionados à muscularidade, suplementos e substâncias voltadas ao ganho de massa muscular.
Os resultados mostraram que maior exposição e engajamento com conteúdos de muscularidade estiveram associados a maiores intenções de uso de esteroides. Associações semelhantes foram encontradas em relação ao tempo gasto nas redes sociais (mais tempo, maior intenção) e para indicadores de uso problemático das plataformas.
Os achados mais robustos, entretanto, envolveram a exposição a conteúdos relacionados à muscularidade. Participantes mais frequentemente expostos a corpos musculosos, magros e atléticos apresentaram maiores intenções de uso, assim como aqueles expostos a anúncios de anabolizantes e SARMs.
Outros fatores relevantes para compreender o uso de anabolizantes na adolescência foram destacados no estudo “School and Parent Factors Associated With Steroid Use Among Adolescents”, que avaliou mais de 38 mil estudantes do ensino médio.
Os resultados indicaram maior prevalência de uso entre meninos, estudantes mais velhos e alguns grupos raciais minoritários. Além disso, fatores familiares e escolares mostraram associação significativa com o uso dessas substâncias.
Pesquisa realizada com estudantes do ensino médio na Suécia, intitulada “Adolescent Use of Anabolic-Androgenic Steroids and Relations to Self-Reports of Social, Personality and Health Aspects”, encontrou padrões semelhantes. O uso foi mais frequente entre meninos e esteve associado a uma autoestima mais baixa, relações interpessoais mais frágeis e maior consumo de outras substâncias, como tranquilizantes e sedativos.
Por fim, documento da Sociedade Brasileira de Pediatria intitulado "Uso de esteroides anabolizantes androgênicos por adolescentes: uma realidade", aponta que o sexo masculino e o perfil atlético constituem importantes fatores preditivos, com prevalências de 6,4% entre meninos e 1,6% entre meninas. Entre os fatores associados estão o culto ao corpo, a busca por aceitação social e determinados padrões contemporâneos de masculinidade, que podem levar à subestimação dos riscos. O documento também destaca a presença de dismorfia muscular ("vigorexia"), além do consumo frequente de suplementos cuja segurança nem sempre está bem estabelecida.
Em síntese, embora a literatura ainda seja limitada e metodologicamente heterogênea, os estudos sugerem que o uso de anabolizantes já está presente em uma parcela relevante dos adolescentes. As prevalências variam conforme a população estudada e o método utilizado, situando-se em torno de 2% a 3% em alguns levantamentos escolares e podendo alcançar valores próximos de 6% entre meninos.
Os riscos dos anabolizantes
Os riscos associados aos esteroides são amplamente conhecidos e muito bem documentados na literatura científica.
O artigo “Adverse Effects of Anabolic-Androgenic Steroids: A Literature Review” conclui que o uso abusivo dessas substâncias pode afetar praticamente todos os sistemas do organismo, estando associado a problemas endócrinos, comprometimento cardíaco, neurodegeneração, doença arterial coronariana e morte súbita cardíaca.
As evidências cardiovasculares também foram reforçadas pelo estudo “Anabolic Steroids and Cardiovascular Risk: A National Population-Based Cohort Study”, que estimou a associação entre exposição a anabolizantes e mortalidade e morbidade cardiovascular em uma coorte nacional sueca.
Foram realizados 3.041 testes em 2.013 indivíduos ao longo de oito anos, com 20% (409) apresentando pelo menos um resultado positivo. O seguimento médio foi de 4,3 anos. Indivíduos positivos tendiam a ser ligeiramente mais velhos no primeiro teste, embora a maioria tivesse até 30 anos. 22% realizaram múltiplos testes e 26% dos positivos tiveram dois ou mais resultados positivos.
A exposição a anabolizantes esteve associada a aproximadamente o dobro do risco de eventos cardiovasculares e mortalidade, mesmo após ajustes para diversos fatores de confusão.
Ademais, à medida que os testes positivos aumentavam, a mortalidade também subia (16,9 para um teste vs. 23,2 para ≥2). Entre as mortes com causa conhecida, cerca de 40% nos positivos foram intencionais (suicídio ou homicídio), enquanto nos negativos essa proporção foi de 14%. Os autores sugerem que parte desse excesso de mortalidade pode refletir comportamentos de risco e uso concomitante de outras substâncias, mas concluíram que o uso de esteroides permaneceu associado de forma independente a eventos cardiovasculares e mortalidade.
Detalhe, esses achados não se referem especificamente a fisiculturistas, mas a indivíduos com histórico de uso de esteroides. Ao analisar esse nicho, o estudo “Mortality in Male Bodybuilding Athletes”, publicado no European Heart Journal, avaliou mais de 20 mil atletas de fisiculturismo ao longo de 16 anos.
Foram registrados 121 óbitos, com idade média de 45,3 anos, dos quais 73 foram súbitos e 46 foram classificados como morte súbita cardíaca. Entre os casos com autópsia disponível, observaram-se alterações estruturais cardíacas relevantes, como hipertrofia ventricular esquerda, cardiomegalia e doença arterial coronariana. Em parte dos casos com análise toxicológica, houve detecção de esteroides anabolizantes.
Entre atletas profissionais, a mortalidade foi substancialmente superior à observada entre amadores, com incidência de morte súbita cardíaca mais de 14 vezes maior. Os autores destacam que os dados sugerem uma carga relevante de mortalidade e eventos cardiovasculares, embora a baixa disponibilidade de autópsias e a ausência de informações robustas sobre uso de substâncias limitem inferências causais. Também foram registradas mortes por suicídio, overdose e homicídio, levantando a hipótese de influência de fatores psicossociais e comportamentais associados ao ambiente competitivo e ao uso de substâncias.
Existe ainda o problema da falsificação desses produtos, frequentemente adquiridos no mercado clandestino ou em canais não regulamentados (incluindo “farmácias underground”). O artigo “Fake Anabolic-Androgenic Steroids on the Black Market – A Systematic Review and Meta-Analysis on Qualitative and Quantitative Analytical Results Found Within the Literature” analisou mais de cinco mil amostras e encontrou uma proporção média global de 36% de produtos falsificados. Outros 37% apresentavam qualidade inferior à declarada, incluindo ausência de princípio ativo, dosagens incorretas ou substâncias não informadas.
No Brasil, a proporção de produtos falsificados variou entre 39% e 43%. A frequência de produtos inertes e superdosados também foi superior à observada em muitos outros países.
Acredito que tenha ficado mais do que claro: a utilização de anabolizantes pode até trazer efeitos benéficos no processo de ganho de massa muscular, performance e definição. Contudo, o preço cobrado é alto.
Queria encerrar o artigo afirmando que, para solucionarmos a situação, bastaria traçar medidas X ou Y, mas, infelizmente, esse não é o caso. Se, por um lado, o discurso mais simples e correto aponta para a necessidade de aumentar a regulamentação das redes para reduzir o risco de que mais jovens sejam influenciados por conteúdos que sugerem ou induzem o consumo, bem como aumentar a fiscalização e as punições àqueles que traficam e comercializam esses produtos, além de ampliar a conscientização dos indivíduos — principalmente dos mais jovens —, isso envolveria diferentes esferas sociais, como a familiar, a política e a educacional.
Na teoria, todas essas medidas são adequadas. Na prática, talvez não sejam suficientes. Um dos principais problemas observados nesta crise de uso precoce de anabolizantes é o fácil acesso às substâncias pela internet, o que sugere a necessidade de maior controle das redes sociais, tanto para reduzir a glamourização promovida por influenciadores quanto para coibir a atuação de laboratórios clandestinos.
Isso seria suficiente? Não sei. Mas, para começarmos a enfrentar essa questão, é preciso dar visibilidade ao problema.
Mauro Proença é nutricionista
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