Teoria do Design Incompetente

Resenha
11 fev 2020
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“A seleção natural não produzirá perfeição absoluta”

(Charles Darwin, “A Origem das Espécies”)

 

Você provavelmente não sabe, mas suas fezes são ricas em vitamina B12. Isso acontece porque as bactérias que produzem essa vitamina vivem numa parte do intestino humano que é incapaz de absorvê-la – o que significa que toda a B12 criada naturalmente no corpo humano desce pela privada, e somos obrigados a obter a vitamina em nossa dieta, ou de suplementos.

Outro caso: a vitamina C, cuja escassez provoca escorbuto, doença que dizimava marinheiros na época das Grandes Navegações. A maioria dos mamíferos do planeta é capaz de produzir a própria vitamina C, geralmente no fígado, mas o Homo sapiens e outros primatas, não. 

Curiosamente, nós primatas temos todos os genes necessários para fabricar a vitamina, mas um deles está quebrado – e, por causa desse defeito específico, a síntese não acontece. Por isso, precisamos de alimentos que sejam fontes dessa vitamina, como frutas cítricas.

Esses são apenas dois dos inúmeros exemplos de “erros de projeto” do corpo humano apresentados pelo biólogo Nathan Lents em seu livro “Human Errors”, um divertido e instrutivo catálogo de nossos bugs anatômicos, bioquímicos e psicológicos, trapalhadas que nenhum estagiário de escritório de design provavelmente cometeria (pôr a fábrica de B12 na parte errada do intestino? sério?), mas que a seleção natural, atuando sobre características geradas por mutações aleatórias, não teve como evitar.

Lents aponta que a dieta humana, onívora e variada, muitas vezes vista como uma vantagem da espécie, é menos uma opção gastronômica do que uma necessidade: carnívoros como gatos obtêm todos os nutrientes de que precisam da carne de suas presas, e vacas vivem muito bem à base de capim. O ser humano se vale de fontes diversas de alimento porque é incapaz de retirar tudo o que precisa de apenas uma ou duas. Nossa criatividade culinária é um feature cultural que surgiu em resposta a um bug biológico.

Tratando de anatomia, o autor descreve como a posição infeliz das cavidades internas do crânio faz do Homo sapiens o animal mais vulnerável a resfriados e infecções das vias respiratórias superiores de toda a criação (exceto pelas raças de cães com focinho achatado, que criamos por seleção artificial), e como a adaptação do esqueleto humano à posição ereta é incompleta e imperfeita – o que gera sobrecargas na coluna e nos joelhos. Algo totalmente compatível com a ideia de um processo seletivo atuando sobre o que o acaso oferece, mas muito difícil de explicar com a hipótese de um designer medianamente competente e que tem alguma ideia do que está fazendo.

O genoma humano recebe um capítulo à parte. Lents presta um ótimo serviço à comunicação pública da ciência ao apontar que o famoso estudo ENCODE, de 2012, que teria provado que mais de 80% do genoma humano é “funcional”, foi solenemente desacreditado. Ele até defende a reintegração da expressão “DNA lixo” ao léxico da ciência. 

O capítulo menciona as longas sequências inúteis e desnecessárias de DNA de vírus, atuais e antigos, que o genoma humano preserva e copia religiosamente, e discute os elementos transponíveis, pedaços de cromossomos que saltam de um lugar para outro durante a divisão celular, causando duplicações, quebrando genes ou, simplesmente, espalhando cópias de si mesmos em áreas inócuas – no, com o perdão da palavra, “DNA lixo”.

Outro capítulo trata da dificuldade do ser humano em reproduzir-se. Falar em “dificuldade” pode soar estranho, num momento em que a espécie se aproxima dos 8 bilhões de indivíduos e os hábitos de consumo do mudo desenvolvido criam pressões insustentáveis sobre os mais diversos ecossistemas, mas o fato é que o ser humano não só sofre com uma dificuldade para conceber maior que a dos demais primatas, como é o único em que o parto representa um risco de vida concreto e objetivo para a mãe. 

“Mães morrendo ao dar à luz é um fenômeno desconhecido entre chimpanzés, bonobos, gorilas e todos os nossos outros primos primatas”, escreve Lents. “Trata-se de um perigo puramente humano”. A razão? Design. O crânio do bebê é grande demais para a bacia da mulher.

O mais longo capítulo tem como título “A Species of Suckers”, o que se traduz como “Uma Espécie de Otários”, e enumera diversos bugs da mente humana, da suscetibilidade a ilusões de óptica ao apetite insaciável por calorias, passando pela falta de jeito com probabilidades e pela facilidade com que nos deixamos convencer por relatos pessoais, enquanto fazemos pouco caso de estatísticas representativas. 

O capítulo final é dedicado a especulações sobre a evolução futura da humanidade. Aqui, Lents mistura otimismo e fantasia, especulando sobre prolongamento da vida, imortalidade e um futuro baseado em práticas econômicas sustentáveis. 

O tom geral do livro é animado, leve e coloquial, atingindo um bom equilíbrio entre linguagem do cotidiano e detalhamento técnico. Na construção de seu argumento – de que seleção natural e acaso explicam muito melhor a vida na Terra (e a espécie humana em particular) do que qualquer hipótese baseada em design – o autor compartilha com o leitor muita informação interessante sobre genética, anatomia, imunologia (a extraordinária suscetibilidade humana a alergias recebe bastante atenção), psicologia e, claro, evolução. 

“Human Errors” é uma leitura agradável, boa para uma manhã na praia ou uma tarde chuvosa na metrópole.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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