Florais de Bach na pandemia: muita fantasia, nenhuma ciência

Questão de Fato
17 jun 2020
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girassóis

Imagino que todo mundo que frequenta (ou frequentava, antes da quarentena) pet-shops ou farmácias de manipulação já deu de cara com catálogos de florais – "remédios" para condições emocionais e psicológicas, de seres humanos ou animais, baseados em flores, água e álcool. Remédios florais estão no catálogo das Práticas Integrativas e Complementares (PICs) reconhecidas e patrocinadas pelo nosso garboso Sistema Único de Saúde (SUS).

Mais recentemente, como parte de um esforço para promover o uso de PICs no cenário da atual pandemia de COVID-19, o grupo ObervaPICs da Fundação Oswaldo Cruz publicou um livreto em PDF que, ao que tudo indica, pretende ser o primeiro de uma série sobre “Cuidado Integral na COVID-19”, exaltando os “benefícios” da terapia floral: “Os florais podem contribuir para amenizar o momento em que vivemos, pois atuam nos pensamentos e nos sentimentos, harmonizando-os”, escrevem as autoras.

O livreto cita quatro estudos com resultados positivos, dois dos quais são descritos como “ensaios clínicos randomizados” – o que sugere uma preocupação mínima com qualidade metodológica –, sendo um de 34 voluntários e outro, de 118. Este último trabalho é uma pérola: comparou três terapias alternativas (toque terapêutico, auriculoterapia e florais) entre si, sem nenhum tipo de condição controle ou placebo, no combate de insônia, ansiedade e fogachos da menopausa.

Mirabile dictu!, ao final dos tratamentos todas as mulheres se sentiam igualmente melhor, independentemente da terapia recebida! Humildemente, proponho que o mesmo desenho experimental, só que comparando sexo, cerveja e um mês de Netflix grátis, traria resultados iguais ou superiores. Chocolate, vinho e Amazon Prime poderiam entrar como controles.

As referências bibliográficas do livreto incluem clássicos imortais da pseudociência, como A Consciência Quântica, de Amit Goswami, e A New Science of Life, de Rupert Sheldrake. Das revisões sistemáticas sobre eficácia das terapias florais (com resultado negativo), conduzidas por Edzard Ernst em 2002 e 2010, nem cheiro.

Mas, enfim, o que são florais? Para que servem? Obrigado por perguntar.

 

 

O homeopata herege

Remédios florais representam uma dissidência, relativamente recente, da homeopatia. A prática mais antiga foi inventada pelo alemão Samuel Hahnemann (1755-1843) no fim do século 18. O inventor dos florais, por sua vez, foi um homeopata inglês chamado Edward Bach (1886-1936).

Ele discordou do princípio fundamental de Hahnemann, de que “semelhante cura semelhante”. Numa palestra proferida em 1931, na qual apresentou suas críticas à ortodoxia homeopática, Bach disse que curas só são realmente possíveis quando o “bem substitui o mal, a luz substitui as trevas” (esse tipo de linguagem pueril é endêmico no universo das terapias alternativas).

Dr. Bach desenvolveu suas ideias peculiares no fim da década de 20 do século passado, ou seja, há menos de 100 anos. Ele publicou, em 1933, o livro The Twelve Healers, que explica o uso das "essências" das flores. Quanto a qual flor cura o quê, Bach “descobriu” essas coisas por meio de “uma sintonia intuitiva e mediúnica com a essência das plantas”, segundo a breve biografia publicada no livro Vitalism: The History of Herbalism, Homeopathy and Flower Essences, de Matthew Wood.

Nenhum teste lhe pareceu necessário, além da introspecção e de três critérios particulares: nada de plantas venenosas, nada de plantas comestíveis e só flores que florescem no auge do verão, quando, nas palavras de Wood, “o Sol está no máximo e [as flores] recebem o grande poder contido nessa fonte”.

Dois métodos de extrair o suposto poder curativo das flores são propostos: num, a matéria vegetal é fervida por 30 minutos, em água que, depois de esfriar, é filtrada. Essa água, então, é usada para encher garrafas até a metade – a outra metade é completada com álcool de uva (brandy, ou conhaque, para os íntimos). No outro, as pétalas são deixadas flutuando sobre a água, ao Sol, por até quatro horas. Então, removem-se as pétalas e as garrafas são enchidas da mesma maneira, metade água, metade conhaque genérico.

Esta é a tintura-mãe; o remédio final, que chega ao paciente, pode ser ainda mais “diluído” (em água ou álcool), mas também é possível consumir diretamente a tintura-mãe, se necessário. Como o próprio Dr. Bach escreveu, “deve-se enfatizar, para o benefício dos abstêmios, que isto [uso direto da tintura-mãe] significa consumo de brandy”. Advertência à parte, tintura-mãe está longe de ser a única ameaça aos abstêmios: alguns remédios florais disponíveis para o consumidor final podem ter concentração alcoólica de 25% a 40% por volume, próximo a vinho do Porto (tipicamente, 20%) ou uísque (43%).

Hoje, os florais são usados quase que só para tratar de aflições emocionais – medo, ansiedade, angústia, e coisas altamente específicas como "a incapacidade de seguir a própria intuição". Mas essa é uma postura revisionista.

O Dr. Bach teorizava que todas as doenças são causadas por desequilíbrios morais, psicológicos ou emocionais, logo suas flores eram capazes de curar, bem, tudo, de câncer a unha encravada: afinal, eles atuam na causa de todos os males. Assim como a maioria dos curadores “espirituais”, sua filosofia era, em essência, uma de responsabilizar a vítima. Problemas de visão, por exemplo, seriam causados por “uma falha em ver e compreender a verdade colocada diante dos olhos”.

 

 

Não é o vírus, é você

Assim como muitos outros sistemas “holísticos” de cura, a filosofia por trás dos florais é uma de culpar o doente pela doença. Na mesma palestra de 1931 – intitulada, não por acaso, Ye Suffer From Yourselves, ou “Sofreis De Vós Mesmos” –, Bach articula essa visão: doenças, para ele, são os meios “adotados por nossas almas para apontar nossas culpas: para evitar que cometamos erros ainda maiores: para nos impedir de causar mais dano: para nos trazer de volta ao caminho da Verdade e da Luz”. Mais adiante: “se sofreis de dor, se apenas olhardes para vós mesmos, vereis que alguma ação brusca ou pensamento brusco está presente em vossa natureza”.

Dor, enfim, é “o resultado da crueldade que causa dor nos outros”. O “médico do futuro”, prevê ele, considerará irrelevante a presença do bacilo da tuberculose ou da bactéria Streptococcus no sangue do paciente (podemos especular que ele diria o mesmo do vírus SARS-CoV-2). “Mas lhe interessará imensamente o por quê de o paciente ter dificuldade para respirar”. “Não fará diferença saber qual válvula do coração está prejudicada, mas será de vital importância determinar de que modo o paciente desenvolveu mal seu aspecto amoroso”.

A obra em que Bach descreve seus remédios florais, Twelve Healers, é um livro com uma história complexa, tendo passado por várias edições entre a inicial de 1933 e a “definitiva”, póstuma, de 1941, e também sofreu acréscimos ou supressões de notas e trechos inteiros, intervenções e interpolações feitas por discípulos do autor.

Por exemplo, a versão de Twelve Healers presente no compêndio The Essential Writings of Dr. Edward Bach não inclui as instruções de preparação dos remédios, e a versão anotada da edição de 1941, do mesmo Twelve Healers, não menciona o “remédio de resgate”, uma combinação de cinco florais para ser usada em “emergências”, e que consta do compêndio. Para complicar ainda mais as coisas, Edward Bach tinha o hábito de destruir rascunhos e anotações.

 

 

Um homem humilde

De qualquer modo, o primeiro parágrafo da chamada “versão curta” da introdução do texto de 1936 (o último publicado enquanto Bach ainda estava vivo) grandilóqua:
 

"Desde tempos imemoriais, sabe-se que Meios Providenciais puseram na Natureza a prevenção e a cura da doença, por meio de ervas, plantas e árvores divinamente enriquecidas. Os remédios da Natureza dados neste livro provaram-se abençoados, acima de todos os outros, em seu trabalho de misericórdia; e provaram que lhes foi dado o poder de curar todos os tipos de doença e sofrimento".

A linguagem, com seus apelos à "Natureza", aos "Meios Providenciais" e a coisas "divinamente enriquecidas", soaria melhor num tratado medieval de alquimia do que num livro de medicina do século 20. Já a “versão longa” da introdução começa assim:

Este sistema de tratamento é o mais perfeito jamais dado à humanidade. Tem o poder de curar doenças; e, em sua simplicidade, pode ser usado no ambiente doméstico. Em sua simplicidade, combinada a seus efeitos de cura total, é muito maravilhoso. Nenhuma ciência, nenhum conhecimento são necessários, além dos métodos simples ensinados aqui”.

Mais à frente, somos admoestados a manter a tal “Dádiva Divina” “pura como é, livre da ciência, livre de teorias, pois tudo na Natureza é simples”.

Se essas não são as palavras de um megalomaníaco paranoico delirante, certamente constituem uma imitação mais do que razoável. Creio que nenhum ganhador do Nobel de Medicina chegou a se declarar o criador do “sistema de tratamento mais perfeito jamais dado à humanidade”. Algo pouco mencionado nas biografias oficiais de Bach é que, quando ele decidiu, em 1930, abandonar sua prática médica em Londres e partir para o campo, a fim de pesquisar as essências florais e viver como uma espécie de santo eremita, mulher e filhos foram deixados para trás.

Seguidores de Bach tentam racionalizar o fato de que ele morreu de câncer quando ainda relativamente jovem, aos 50 anos – algo inesperado, para dizer o mínimo, em alguém que tinha descoberto a cura de tudo –, dizendo que ele não morreu dos tumores, mas sim de "exaustão". Mas não havia floral para exaustão? De fato, a farmacopeia floral oferece algumas opções: hornbeam (cárpino), olive (oliveira) e oak (carvalho).

 

drinque à base de brandy

 

Ciência, cadê você?

Existem alguns estudos controlados sobre a eficácia dos florais de Bach. A revisão sistemática conduzida em 2010 concluiu que a coisa toda não passa de placebo. Isso se encaixa perfeitamente no tipo de indicação dada, hoje em dia, para esses medicamentos. É difícil imaginar algo mais sensível ao efeito placebo do que "tortura mental por trás de um rosto alegre" ou "dificuldade em dizer não". Para alguma coisa, o conhaquinho há de servir.

O que temos, portanto, é a exploração comercial de placebos, sendo chamados de "remédios", prometendo, de forma clara, benefícios para a saúde e contando com o beneplácito e o apoio da rede pública.

Por mais que coisas como "incapacidade de dizer não" possam ser vistas como queixas pertinentes daquela parte da população definida como os “saudáveis incomodados”, que talvez se beneficie de umas três gotas de conhaque genérico na ponta da língua, a verdade é que várias das condições imaginárias, supostamente cobertas pelos florais, sobrepõem-se a condições reais, que podem requerer tratamento psiquiátrico sério.

Se podemos ser otimistas e supor que ninguém vai tomar floral como medida de emergência contra infarto ou para tentar fazer sumir um câncer, talvez não seja exagero temer que haja pessoas tentando controlar dependência química ou depressão clínica, talvez lutando pela própria vida, sem nada além de água de flores e álcool de uva.

Como escreve o médico e pesquisador Edzard Ernst em seu livro Alternative Medicine, “considerando que os remédios florais de Bach não são efetivos, sua avaliação de custo/benefício não pode ser positiva”.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

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